Sebastian Gardner
"A psicanálise considerou todo o mental como sendo, inicialmente,
inconsciente; a qualidade ulterior de "consciência" podia tanto estar
presente como ausente. Isto certamente provocou uma rejeição
dos filósofos, para quem "consciência" e "mental" eram idênticos.
Eles protestaram, pois não podiam conceber um absurdo como o "inconsciente
mental". Isto, todavia, de nada adiantou; a idiossincrasia dos filósofos
acabou sendo deixada de lado. A experiência da freqüência
e da força dos impulsos (alcançada a partir do material patológico,
do qual os filósofos eram ignorantes), dos quais diretamente nada
se sabia, e cuja existência teve que ser inferida como se infere um
fato no mundo exterior, não deixou margem à dúvida.
Poder-se-ia salientar, incidentalmente, que isto era apenas tratar a própria
vida mental como sempre se havia tratado a de outra pessoa. Não se
hesitou em atribuir processos mentais à outra pessoa, mesmo que não
se tivesse nenhuma consciência imediata deles e se pudesse apenas inferi-los
das palavras e ações dela. Contudo, o que se sustentou ser
bom para outra pessoa deve ser aplicável a si próprio. Qualquer
um que tenha insistido que os seus próprios processos ocultos realmente
pertenciam a uma segunda consciência defrontou-se com o conceito de
uma consciência de algo do qual nada se sabia, de uma "consciência
inconsciente" - e isto dificilmente seria preferível à suposição
de um "inconsciente mental". ... A questão ulterior quanto à
natureza última deste inconsciente não é mais sensata
ou proveitosa do que a mais antiga sobre a natureza do consciente".
(1925d [1924], XX, 31-2)
As razões para se acreditar na existência do inconsciente são
de fato empíricas, mas a questão sobre o que distingue mais
fundamentalmente a concepção de inconsciente de Freud é
conceitual. Preocupar-me-ei principalmente com a natureza do inconsciente
em termos filosóficos gerais, ao invés de com o detalhe preciso
da caracterização de Freud sobre o tema. Pretendo apresentar
uma breve defesa da coerência do conceito e ao menos esboçar,
sem explorar em profundidade, algumas das questões que estariam envolvidas
num tratamento mais minucioso do assunto1.
1. Algumas coisas muito gerais acerca da caracterização
de Freud sobre o inconsciente devem ser estabelecidas primeiro. Levarei em
conta que Freud acreditou nas seguintes verdades do seu conceito de inconsciente:
que o sentido "descritivo" de "inconsciente" (cujo critério é
a simples consciência) deve ser distinguido do sentido "dinâmico",
e que a principal preocupação da psicanálise é
com o inconsciente dinâmico; que o inconsciente dinâmico é
uma fonte de motivação, especificamente a motivação
que é real ou potencialmente uma causa do conflito mental, e que dá
pouca ou nenhuma contribuição positiva à cognição;
que sua hipótese é concebida especificamente em referência
aos fenômenos clínicos de resistência e transferência;
que é, todavia, em um sentido complexo e qualificado, diretamente
manifesto em sonhos; que é rigorosamente relacionado, enquanto falha
e causa de distúrbio, à faculdade de memória; que em
uma fase inicial, a do "Projeto" (1950a), é considerado embrionariamente
como um nível neural; que é pela primeira vez conceitualizado
apropriadamente como Ucs na primeira topografia; que é inicialmente
formulado em tal relação íntima com o conceito de repressão
que se apresenta, nesse estágio, como aproximadamente coextensivo
ao reprimido; que a hipótese do inconsciente é diferente da
hipótese de uma segunda consciência e a exclui (em relação
a qualquer explicação dada); que é claramente distinto
do pré-consciente, (Pcs), o qual é inconsciente no sentido
meramente descritivo; que o Ucs, embora corresponda a um tipo especial de
característica neural ("investimento de energia livre"), é
autônomo em relação à anatomia do cérebro;
que, embora esteja imediatamente próximo da vida pulsional, as "idéias"
(ou "representantes pulsionais") são seus conteúdos primários,
ao invés de suas próprias pulsões; que, além
das idéias, é também necessário falar, embora
apenas em termos altamente qualificados, de emoções como inconscientes;
que o comportamento de seus elementos é caracterizado por um conjunto
de aspectos amplamente semilógicos ou sintaticamente caracterizáveis,
incluindo a ausência de negação e indiferença
ao tempo, os quais são descritos por Freud como constituindo um processo
"primário", uma condição que está intimamente
relacionada à prevalência do desejo no inconsciente como contrário
ao princípio da realidade; e que o inconsciente como Ucs se encontra,
no segundo modelo topográfico da mente (chamado "estrutural"), distribuído
na totalidade do id e na maior parte do ego2.
Um primeiro comentário óbvio pode ser adicionado a essas caracterizações
em relação à epistemologia do inconsciente. O conhecimento
do inconsciente é estabelecido por duas conexões: (i) por referência
ao comportamento do analisando - aqui o estado inconsciente é identificado
por uma descrição precisa, que é construída fora
dos relatórios de comportamento do analisando (como "o motivo que
fez o analisando esquecer de x, representar y, etc".); e (ii) por referência
aos sonhos, fantasias, e sintomas, que fornecem um insight indireto e, não
obstante, privilegiado do conteúdo dos estados inconscientes - aqui
o estado inconsciente é identificado em termos de seu conteúdo
representacional intrínseco.
É provável que nenhuma dessas atribuições sejam
controversas. Contudo, as três seguintes questões básicas
são deixadas em aberto: Será que faz sentido falar, no final
das contas, em estados inconscientes e, se for esse o caso, por meio de quais
fundamentos é possível tematizá-los? Que tipo de coisa
é o inconsciente? De que tipos são os estados que compõem
o inconsciente? Estas questões serão tratadas, por sua vez,
nas três seções seguintes, embora mais tempo será
dedicado à primeira.
2. O conceito de mentalidade inconsciente é coerente e não
objetável? A ordem do argumento nesta seção seguirá,
grosso modo, a do próprio Freud em sua Justification for the Concept
of the Unconscious (1915, XIV, pt. I).
A "mentalidade inconsciente" não envolve uma direta contradictio
in adjecto: Não é, de modo algum, uma simples verdade analítica
que toda mentalidade seja consciente3. Contudo, existem, grosso
modo, três argumentos a partir dos quais se poderia sustentar que a
noção de mentalidade inconsciente envolve um absurdo conceitual:
antiabstracionismo, dependência de força causal, e redundância.
Antiabstracionismo: a objeção é a de que a noção
de mentalidade inconsciente envolve uma extrapolação conceitual
a partir de um tipo de mentalidade consciente; assim, ela é refutável
enquanto uma "abstração" ilegítima da realidade conhecida.
Dependência de força causal: A objeção é
a de que, porque os estados mentais são dependentes de sua existência
consciente para possuírem força causal, qualquer noção
de mentalidade inconsciente será necessariamente epifenomenal e, portanto,
inadequada enquanto explicação. Redundância: A objeção
é a de que se pode estabecelecer de antemão que qualquer comprovação
da mentalidade inconsciente, como uma hipótese descritiva empírica,
será redundante em relação a alguma outra hipótese
empírica disponível e preferível. Estes pontos não
estão separados na maior parte dos tratamentos negativos do conceito
de mentalidade inconsciente4.
Se considerarmos agora cada uma dessas objeções, veremos de
imediato que estamos partindo primeiramente de uma concepção
de mente que pressupõe um lugar central para a consciência.
Entretanto, necessariamente conectada à concepção comum
de consciência, está a prática de descrever estados mentais
como estando ou "dentro" ou "fora" da consciência. Utilizamos esta
distinção para dar sentido a diversas deficiências cognitivas
e falhas de autoconhecimento: Por exemplo, costumamos dizer que algo não
está, em algum momento, dentro da mente através da expressão
"ela não teve em mente que..."; "o pensamento que... estava longe
de sua mente", ou que uma pessoa não se dá conta de algo que
ela conhece, ou que uma crença está em algum sentido encoberta
(a verdade acerca da qual uma pessoa engana a si mesma, o conhecimento acrático
do que é melhor fazer).
Ora, (para introduzir uma distinção filosófica), o
sentido no qual se pode dizer que as informações mentais estão
na consciência não é o mesmo para todos os tipos de estados
mentais: Dizer que uma dor está na consciência não é
o mesmo que dizer que uma crença está na consciência.
No primeiro caso, significa dizer que o estado mental está completamente
exposto à observação mental do sujeito. No segundo,
ao contrário, trata-se da ocorrência de episódios (de
pensamento) nos quais a crença se encontra manifesta de vários
modos e graus de clareza, com margem a erros de vários tipos5
.
Os sentidos correspondentes do que significa dizer que itens de diferentes
tipos não estão na consciência também não
são os mesmos. Dizer que uma dor não está na consciência
não é o mesmo que dizer que uma crença não está
na consciência. O primeiro caso é (ou seria) algo que sem dúvida
apresenta uma séria dificuldade para a concepção comum
de mente, ao passo que o último não, pois ele já está
compreendido nela (isto é, de fato, o mesmo que Freud chama inconsciente
descritivo).
A espacialização qualificada da consciência, que pode
ser encontrada no pensamento comum sobre a mente, apresenta assim, uma fonte
de motivação e se apresenta livre de confusão conceitual
para a caracterização topográfica da consciência
de Freud; desse modo, podemos sugerir que a concepção freudiana
da mente em termos topográficos é uma extensão da concepção
comum de mente.
A análise precedente do que significa estar na consciência
tem uma importância adicional para o conceito de mentalidade inconsciente.
Se a natureza equívoca da noção de existência
na consciência de um estado mental é negligenciada, e toda a
mentalidade é considerada como estando na consciência apenas
no sentido forte apropriado para tais informações como dores,
então, de fato, chegaremos de imediato a uma concepção
altamente cética do conceito freudiano de mentalidade inconsciente
- na qual sem dúvida parece estar envolvida a "abstração",
uma extrapolação ilegítima de tudo com o qual estamos
familiarizados. No entanto, quando lembramos que há, no pensamento
comum, um modo de descrever a relação dos estados mentais com
a consciência que inequivocamente sustenta uma distinção
entre estados mentais e a consciência que deles existe, rompemos com
o idealismo forte, por assim dizer, acerca do mental6: Supomos
que os estados mentais, como as crenças, não existem somente
em virtude da consciência deles. A noção de mentalidade
inconsciente de Freud é alcançada ao se ampliar a distinção
entre estados mentais de consciência e ao combiná-los com a
caracterização topográfica explícita, na qual
os locais psicológicos são considerados como existindo independentemente
de seus elementos em qualquer momento determinado.
A essa altura, poder-se-ia pensar que uma forma fraca da afirmação
segundo a qual os estados mentais dependem da consciência ainda permanece
como opção, na medida em que ainda se poderia dizer que a existência
de um estado mental individual permanece dependente das possibilidades de
manifestação correspondentes. Contudo, para romper com esta
concepção tão fraca, seria necessário apenas
encontrar razões específicas, bem articuladas, para se pensar
que estados mentais são possíveis e ocorrem na ausência
das possibilidades habituais de manifestação. A afirmação
categórica da psicanálise é a de que tais razões
certamente existem, como Freud diz na citação introdutória.
A fim de compreender estas razões, temos que olhar para o "material
patológico" do qual os filósofos são ignorantes, na
medida em que eles não valorizam as necessidades específicas
de descrição que tal material empírico origina.
Não é fácil conceber um argumento para se pensar que
esta afirmação categórica da psicanálise seja
a priori falsa, e que as razões apresentadas em defesa das afirmações
psicanalíticas não possam desempenhar um papel que não
seja também objetavelmente redutivo (por exemplo, descartando os estados
mentais inconscientes com base no fato de que os fenômenos mentais
devem ser completamente identificados com certas disposições
à expressão verbal).
No entanto, a afirmação da dependência requer explicação.
Existem, de fato, duas formas de dependência a considerar: dependência
causal e conceitual. Poderia a dependência ser causal? Mais uma vez,
é muito difícil imaginar um argumento para a lei universal
irrestrita "Se algo for um estado mental, então deve ser capaz de
causar manifestações de si mesmo" que não fosse injusto
para com a psicanálise.
Poderia a dependência ser conceitual? uma objeção mais
fundamental pode ser feita a esta proposta. Tal concepção seria,
enfim, indistinguível de um tipo de "fenomenalismo" acerca do mental;
isto é, corresponderia a uma identificação de estados
mentais com manifestações reais ou possíveis. Afirmar
que a dependência conceitual é afinal, neste contexto, indistinguível
de um tipo de fenomenalismo, não significa certamente dizer que há
uma equivalência lógica entre "X é conceitualmente dependente
de Y" e "X é real ou possivelmente Y". Pelo contrário, o que
significa é que, no presente caso, se a dependência conceitual
é supostamente forte o bastante para excluir estados mentais inconscientes,
então nenhuma razão pode ser dada por ninguém que deseje
sustentar a afirmação da dependência com base no fato
de também não aceitar a segunda, i.e., a afirmação
reducionista; a motivação para as duas é equivalente,
e a segunda afirmação é mais econômica do que
a primeira.
Duas observações podem ser feitas sem considerar se a questão
sobre as paráfrases fenomenalistas do mental podem ser bem sucedidas
com alguma plausibilidade. Primeira: qualquer que seja a motivação
para o fenomenalismo com relação ao mundo físico (tal
como segurança epistemológica), ela é de pouco ajuda
para o mental. Segunda: o fenomenalismo com relação ao mental
torna muito mais difícil entender de que maneira o mental ainda pode
ser pensado como um sistema de estados causalmente relacionados. Certamente,
isto parece requerer o pensamento adicional altamente não-descritivo
de que a consciência é uma criadora ex nihilo de estados mentais.
Assim, a questão sobre se existem estados mentais que são
independentes das possibilidades de manifestação parece estar
sujeita à determinação empírica. Entretanto,
será que existe algum modo de saber de antemão que não
pode haver nenhuma necessidade empírica para o inconsciente?
Em The Principles of Psychology7, de William James, o
conceito de mentalidade inconsciente é considerado em termos de sua
função como um concomitante necessário, que James chama
de teorias do "estofo mental", isto é, teorias que consideram os estados
mentais como compostos empiricamente analisáveis. James acredita que
podemos estar inclinados a introduzir estados mentais inconscientes para
caracterizar a ação habitual, o exercício irrefletido
de competências complexas, e a capacidade de produzir irrefletidamente
conexões associativas entre idéias. James também inclui,
como estímulos à postulação de mentalidade inconsciente,
aquelas numerosas explicações - tais como confusão mental
em suas várias formas, o componente do sofrimento no desejo e na inquietação,
e a consciência-sensitiva irrefletida, onde algo, que está ocorrendo
o tempo todo, é sentido mas não é percebido, - que incluem
algumas das considerações que levaram Leibniz a postular petites
perceptions (percepções pequenas demais, sintéticas,
não intensas, ou deficientes em novidade ou variação
para aparecerem na consciência) 8. Um genuíno quebra-cabeça
é constituído por tal explicação, para qualquer
um que deseje considerar a atribuição psicológica como
uma forma de explicação causal. É de fato altamente
provável, seguindo Leibniz, que a existência do inconsciente
neste sentido descritivo do termo, para qualquer um que aceite uma concepção
realista-causal da psicologia comum, não seja nem deduzida nem contingente,
mas sim necessária. No entanto, tudo o que James pôde fazer
quando se deparou com este problema foi recorrer ou à possibilidade
de fazer o cérebro ocupar o papel relevante, ou supor que nós
instantaneamente (em algum sentido peculiarmente extenso do termo) "esquecemos"
muitos de nossos "sentimentos". Ora, visto que não encontramos um
bom motivo para passar a tarefa da explicação à neurofisiologia,
a primeira proposta de James não é relevante, e é óbvio
que a sua substituição de "sentimentos esquecidos" por "mentalidade
inconsciente" em nada contribui para fornecer uma maneira clara ou adequada
de tratar a classe de explicações considerada.
Com base em tais considerações, as seguintes réplicas
podem ser dadas aos motivos para insatisfação com respeito
ao conceito de mentalidade inconsciente mencionados acima. Antiabstracionismo:
tem sido sugerido que o conceito comum de um estado mental, tal como o de
crença, já extrapola ou "abstrai" da experiência consciente
num sentido suficientemente relevante para trazer à baila a noção
mais forte de mentalidade inconsciente que Freud emprega. Dependência
de força causal: de modo análogo, não parece ser parte
de nenhuma concepção comum de mente que apenas as manifestações
de estados mentais tais como as crenças sejam causalmente eficazes,
nem tampouco que esses estados mentais sejam apenas causalmente eficazes
na medida em que são manifestos; isto é, geralmente supomos
que crenças e desejos atuam na mente não somente devido ao
fato de que há consciência deles. (Isto vale pelo menos para
o alcance central de seus efeitos. Há certamente alguns tipos de efeito
- tais como aqueles ligados à deliberação - para os
quais é verdade que um estado mental deve ser consciente a fim de
alcançar esses efeitos). A concepção comum de consciência
não torna o estado consciente uma pré-condição
para a força causal; ao invés disso, torna a força causal
transcendente da consciência que há dele. Redundância:
A proposta alternativa de James não obtém uma vitória
clara. Desse modo, permanece em aberto a questão se há ou não
boas razões empíricas para aderir ao inconsciente freudiano.
Quando tentamos introduzir os estados mentais que não podem ser manifestos
queremos dizer uma das duas coisas seguintes: ou que há estados mentais
que são não-manifestáveis acidentalmente, ou que há
estados mentais que são não-manifestáveis não-acidentalmente.
A distinção da acidentalidade baseia-se numa noção
de tipos de estado mental, ou, em outros termos, no que é ou não
atribuível à natureza intrínseca de um estado mental.
Nesse momento, será útil expor mais precisamente algumas concepções
do conceito psicanalítico de inconsciente em termos dos graus sucessivos
de independência do conceito de consciência:
(a) O inconsciente como completamente composto de idéias que eram
conscientes e foram reprimidas; isto satisfaria o que poderíamos chamar
a condição "lockeana" de mentalidade (que não pode haver
nada na mente que não tenha estado previamente na consciência)
9.
(b) O inconsciente ou como completamente composto de idéias ou, ao
menos, como incluindo algumas idéias que não eram originalmente
conscientes, mas que poderiam se tornar conscientes.
(c) O inconsciente ou como completamente composto de idéias ou, ao
menos, como incluindo algumas idéias que não eram originalmente
conscientes, e que não poderiam se tornar conscientes.
A primeira e a segunda concepção empregam as noções
de inconsciente acidental, a terceira a de inconsciente não-acidental.
A última destas concepções condiz com o inconsciente
nos escritos de Melanie Klein e W. R. Bion, mas é também, mais
provavelmente, atribuível a Freud. Há evidência de que
Freud admitiu, e até certo ponto utilizou (c), mesmo que não
tenha explorado suas possibilidades tanto quanto alguns de seus sucessores.
Esta evidência não é, porém, fornecida pela sua
descrição de instintos como coisas que são inatas e
que possivelmente não podem se tornar objetos da consciência,
visto que estes não foram considerados por Freud como mentais, mas,
ao contrário, como físicos (1915d, XIV, 148 e 1915e, XIV, 177).
A evidência surge, ao contrário, das afirmações
explícitas de Freud de que o conceito de inconsciente é mais
amplo do que o de reprimido, junto com sua admissão posterior de uma
herança filogenética e da existência de fantasias primitivas10.
Uma outra questão deve agora ser levantada com relação
às três concepções mencionadas acima: Será
que existe uma boa razão conceitual para limitar o conceito de inconsciente
à tendência (b) ou mesmo (a)? A condição lockeana,
que à primeira vista teria tal conseqüência, parece compatível
com o realismo acerca dos estados mentais inconscientes, adicionando-se apenas
uma condição genética em sua existência. Contudo,
pode-se agora observar que há algo refutavelmente arbitrário
sobre a condição lockeana: se uma idéia pode se tornar
inconsciente mais tarde, por que não pode estar originalmente inconsciente
e mais tarde se tornar consciente? Qual é o fundamento lógico
para a assimetria temporal na condição lockeana? O único
argumento possível para a condição lockeana parece repousar,
mais uma vez, numa concepção a partir da qual a criação
de um item mental, de algum modo, envolve a consciência como um ingrediente
genético. Todavia, esta noção - que parece exigir que
a consciência seja considerada como uma causa criativa - não
deve certamente ser tomada num sentido comum, e é muito difícil
compreender que tipo de apoio filosófico, compatível com o
realismo psicológico comum, poderia ser fornecido a ela. (As objeções
à condição lockeana fazem-nos remontar aqui às
objeções anteriores ao fenomenalismo em relação
ao mental).
Se isto é correto, então seria injusto sustentar o conceito
de inconsciente em (a): o realismo psicológico comum conduz diretamente
a (b). E o movimento adicional de (b) para (c) é produzido, como já
disse, subtraindo-se a possibilidade da manifestação. Então,
o que permite este movimento adicional?
O fundamento lógico para se negar que (ao menos alguns) estados inconscientes
psicanalíticos são de um tipo que podem ser manifestos repousa
na diferença entre suas características fundamentais e aquelas
dos estados mentais manifestáveis. Estas características são
as "características especiais do sistema Ucs" (1915e, XIV, pt. V).
Elas descrevem seus estados de não-manifestabilidade enquanto estados
bem diferentes em sua constituição interna daqueles que podem
ser manifestados de modo a não serem tais que possivelmente apareçam
na consciência, exceto em formas distorcidas e indiretas, e sob condições
especiais (tal como no sonho). Na teoria kleiniana, este tipo de fundamento
lógico é extensamente elaborado, ao mesmo tempo em que os estados
inconscientes são identificados com fantasias, cujos objetos constituem
um mundo interior, a apreensão dos quais não utiliza as mesmas
forças psicológicas que são exercidas na consciência
da realidade externa.
Como, em vista de tudo isto, o conceito de inconsciente deve ser coordenado
com o de repressão - se a conexão é conceitual ou em
última instância contingente - depende, em primeiro lugar, de
como geralmente concebemos o conceito de repressão. Há uma
compreensão restrita do conceito de repressão (aquela que está
mais rigorosamente em sintonia com o modelo de "esquecimento" histérico)
segundo a qual ele denota uma espécie particular de defesa psíquica
(cuja importância nos escritos de Freud diminui sensivelmente, sendo
virtualmente eliminado na teoria kleiniana). Em uma interpretação
mais ampla do conceito, a questão sobre se há ou não
também um uso do termo para denotar uma espécie particular
de defesa, a repressão, embora nunca seja equivalente à "defesa
inconsciente", permanece, mesmo que apenas implicitamente, como um componente
de todas as formas de defesa psíquica inconsciente11. Assim, o reprimido
rigorosamente construído pode ser considerado como coextensivo ao
inconsciente das tendências (a) e (b), mas não de (c); para
o inconsciente de acordo com a concepção (c), o conceito restrito
de repressão seria necessário para justificar, quando muito,
alguns conteúdos inconscientes. Na interpretação mais
ampla, ao contrário, a repressão é parte da descrição
causal de todos os processos inconscientes.
Então, em sentido restrito, poderia ser sustentado que, enquanto
para (a) e (b) o conceito de inconsciente deriva daquele de repressão,
que é uma interpretação que alguns comentários
de Freud sugerem12, para (c) isto não é o caso. Entretanto,
devemos ter cuidado para não interpretar mal esta afirmação,
enquanto implicando que (c) envolve um salto conceitual, como se com (a)
e (b) estivéssemos trabalhando com um conceito de inconsciente que
poderia ser logicamente derivado do pensamento comum, e com (c) não
estivéssemos. O conceito destituído de existência mental
inconsciente é constante de (a) para (c). O que muda é somente
a descrição da não-manifestabilidade. Assim, (c) não
representa um desvio conceitual radical do sentido comum, e não requer,
para que sua inteligibilidade seja garantida, nenhuma outra condição
conceitual especial a ser satisfeita.
Neste momento, uma questão diferente requer atenção.
De acordo com a citação introdutória de Freud, admitiu-se
que a razão positiva para se acreditar na existência do inconsciente
poderia advir, e de fato advém, de aspectos empíricos. Será
que há um modo simples e único de se caracterizar o tipo de
razão apresentada por Freud para garantir a suposição
do inconsciente? Freud escreveu: "Ele [o inconsciente] é necessário
porque os dados da consciência exibem um número muito grande
de lacunas" (1915e, XIV, 166) 13. Os termos desta sugestão podem parecer
contrariar uma concepção filosófica importante e intuitivamente
persuasiva, segundo a qual a consciência é caracterizada por
um tipo especial de unidade que não permite, de um ponto de vista
lógico, tolerar "lacunas" de qualquer tipo. Contudo, não precisamos
contestar esta doutrina a fim de compreender a afirmação de
Freud. Podemos interpretar a noção de Freud em termos de lacunas
na auto-descrição. Estas lacunas são, como tais, completamente
psicológicas por natureza - ocorrem em pontos onde geralmente esperaríamos
uma descrição psicológica intencional acessível
- e desta maneira estão separadas de outras lacunas meramente nominais
na descrição psicológica comum (tal como, por exemplo,
a impossibilidade de descrever, em termos intencionais, como é que
alguém geralmente recorda algo).
Entretanto, somos deixados com o seguinte quebra-cabeça: Qual a relação
entre a existência de um estado mental e a consciência dele?
Uma preocupação surge neste ponto: se admitirmos que é
possível haver algo como um estado mental sem consciência, e
por esta razão violamos uma forte conexão definicional do mental
com a consciência, então, visto que não existe nenhuma
maneira de mostrar como o mental pode implicar a consciência, a admissão
de um inconsciente terá inadvertidamente nos despojado por completo
da realidade de nossa existência consciente (esta era uma preocupação
de Sartre e uma forma de objeção à psicanálise14).
Ora, não há, de fato, nenhuma dúvida de que a teoria
psicanalítica amplia nossa consciência intelectual dos problemas
gerais da mente, em particular do problema de assegurar o valor descritivo-causal
para o mental sem fazer a característica particular da consciência
parecer epifenomenal. Entretanto, nos termos fixados no decorrer da discussão
precedente, já havia sido indicado de que maneira essa preocupação
pode ser atenuada.
Não é o caso que a própria idéia da mentalidade
inconsciente implique que o estado consciente seja apenas uma propriedade
epifenomenal, ou que seja apenas uma propriedade acidental de estados mentais.
Esta conseqüência não ocorre, pois introduzimos o conceito
de inconsciente com referência ao de consciente, e não o fizemos
de um modo que implicasse que a consciência seja epifenomenal. Esta
maneira de introduzir o conceito de inconsciente estabelece uma ampla (e,
do ponto de vista psicanalítico, completamente aceitável) dependência
conceitual do inconsciente na mentalidade consciente. Uma dependência
geral do conceito de um estado mental em tal consciência não
implica na posse, por cada espécie de estado mental, da característica
da consciência: Os estados atribuídos psicanaliticamente podem
carecer de manifestabilidade e, ainda assim, não ser independentes
conceitualmente da consciência, na medida em que são necessariamente
partes da mente, cujo conceito está conectado com o de consciência.
Assim, a teoria psicanalítica não precisa negar que, se não
houvesse nenhum fenômeno de autoconsciência, não haveria
nenhum inconsciente, ou que - para uma gama de estados mentais - a característica
da consciência seja, em alto grau, causalmente significativa. Certamente,
a defesa da eficácia da terapia psicanalítica (embora não
seja diretamente uma questão como freqüentemente se supõe)
requer tal suposição.
Isto é verdadeiro tanto para a segunda quanto para a primeira topografia.
Embora a segunda topografia não especifique um lugar particular para
a consciência, ela não exclui uma tal especificação:
O Cs pode facilmente ser colocado em partes apropriadas do ego. E o conceito
de estado mental que é empregado na segunda topografia é filosoficamente
tão independente do conceito de consciência quanto o é
o conceito de estado mental empregado na primeira topografia. A diferença
consiste exatamente no fato de que, na segunda topografia, a caracterização
dos estados mentais inconscientes em termos de sua (in)suscetibilidade à
manifestação - na medida em que tal característica não
deve mais ser correlacionada de um modo confiável com aquelas propriedades
causais dos estados mentais mais significativos da teoria psicanalítica
- não é mais construída dentro do modelo. Assim, novamente,
a segunda topografia, por não apresentar um local fixo ou explícito
para a consciência, não implica a independência conceitual
de seus elementos com respeito a esse conceito.
Apesar de não ser capaz de explicar a natureza da relação
entre mentalidade e consciência, a teoria psicanalítica pode,
todavia, ser aliviada de alguns dos ônus da filosofia, e protegida
contra as investidas dela.
3. Que tipo de entidade nós supomos quando falamos do "inconsciente"?
Particularmente, qual é o significado da denominação
freudiana de "inconsciente" (que possa assinalar intencionalmente uma determinada
distância de qualquer interpretação do senso comum da
mente)?
Inicialmente, parece apropriado tentar interpretar o termo "inconsciente"
como se referindo a algo como "mente inconsciente", para tomar um exemplo
óbvio. Se Freud entendeu ou não a expressão sempre assim,
o que parece improvável, a questão filosófica importante
é, de qualquer modo, a seguinte: com que termo, especial ou geral,
podemos nos referir ao inconsciente? Que espécie de coisa é
o inconsciente?
Ora, é claro que, ao considerar esta questão, estamos ao mesmo
tempo trazendo à tona a questão crucial sobre em que medida
Freud intuiu a hipótese do inconsciente como mostrando que somos,
em algum sentido novo, ou imprevisto e contra-intuitivo, "divididos" constitucionalmente,
ou tipos não-unitários de existência ("múltiplos
eus", como nos havia sido sugerido chamar os produtos da especulação
freudiana e similares15).
A questão da extensão ou rigor da divisão da personalidade
intuída por Freud pode ser mais precisamente caracterizada a partir
da seguinte pergunta mais formal: será que a categoria sobre a qual
o inconsciente incide é algo que é distinto, e não logicamente
subordinado, à categoria em que é empregado, em um nível
fundamental, na individualização de uma pessoa? Para esta questão,
haverá três tipos de respostas: uma resposta negativa, e versões
fracas e fortes para uma resposta afirmativa.
A resposta negativa será no sentido de que o conceito de inconsciente
pode, de um lado, ser formalmente comparado a conceitos como os de memória
ou de vontade, termos referentes a faculdades ou funções que
se ajustam a um nível de descrição claramente compatível
com as mais fortes concepções de unidade da pessoa; e, por
outro lado, (embora esta segunda interpretação não seja
excludente em relação à primeira) ser compreendido tanto
como se referindo simplesmente ao conjunto de estados mentais que são
inconscientes e, de formas variadas, possuidores de características
especiais que fazem deles conceitos diferenciados, quanto como um fenômeno
mental unitário16.
A resposta fracamente divisional será no sentido de que a
introdução do inconsciente apresenta uma nova categoria, nem
sempre latentemente disponível em concepções pré-teoréticas
do mental, mas cuja utilização não envolve nenhuma inconsistência
radical com relação a essas concepções.
A resposta fortemente divisional, ao contrário, será
no sentido de que o conceito de inconsciente envolve a introdução
de uma categoria cujo emprego é controverso e inconsistente com as
concepções comuns de unidade da pessoa. Esta concepção
será sustentada por qualquer um que pense que o inconsciente esteja
incluído numa categoria de um tipo tal que seja de fato aplicado ao
ponto fundamental em que uma pessoa é individualizada, da qual se
seguirá que a teoria freudiana caracteriza as pessoas como múltiplos
daquilo que previamente consideramos como instâncias únicas.
É importante deixar claro que poderia haver razões incorretas
para conceber Freud como alguém comprometido com uma concepção
de pessoa-dividida. A primeira é que Freud não está
comprometido com tal concepção por alegar (na passagem citada
no começo, e noutra parte - 1915e, XIV, 169 e 1933a [1932], XXII,
70) que o conhecimento do inconsciente é justificado de um modo semelhante
ao conhecimento da mente de outra pessoa. Isso porque o uso de tal justificação
é plenamente compatível, por um lado, com a concepção
segundo a qual o que é atribuído ao se falar do inconsciente
é apenas um conjunto adicional de estados mentais, e por outro lado,
com a concepção segundo a qual o que é atribuído
é uma segunda mente no sentido de uma pessoa-dividida. A segunda é
que ele não está assim comprometido por causa da sua descrição
da mente no modelo topográfico como "constituída de um número
de agências ou sistemas" (1925d [1924], XX, 32), sendoque esses são
termos utilizados de um modo especial, e é uma questão posterior
o que Freud quis dizer com elas precisamente.
Em defesa da resposta negativa, pode ser demonstrado, como Richard Wollheim
notou17, que as relações conflituais entre sistemas inconscientes
e conscientes nem sempre se sustentam entre si de modo pleno, em virtude
meramente de sua diferença com relação ao status (in)consciente
de seus elementos descritivamente compreendidos: tal diferença, em
si mesma, não gera conflito. Consciente e inconsciente não
são propriedades intrinsicamente adversas, e os Cs-Pcs e Ucs
não são intrinsicamente antagônicos entre si; o conflito
ocorre entre eles somente por causa do caráter particular dos conteúdos
do Ucs e sua conseqüente conexão com a repressão.
Entretanto, será que a situação muda quando passamos
a considerar a segunda topografia "estrutural"? Tal topografia fornece apenas
uma expressão explícita de fatos já reconhecidos na
primeira, embora invertendo sua ordem de prioridade, tornando a identificação
do lugar de uma informação mental independente da identificação
de seu status descritivamente (in)consciente. Assim, mais uma vez, não
há nenhuma mudança conceitual fundamental envolvida na transição
para a segunda topografia18, um ponto que é também mostrado
pelo fato de que as formas de descrição posteriores de Freud
combinam explicitamente a segunda topografia com a primeira19. Dado que a
primeira topografia não é a de uma pessoa metafisicamente dividida,
e que a segunda está imanentemente contida na primeira, parece inconsistente
interpretar a segunda, mas não a primeira topografia, como metafisicamente
divisional da pessoa.
Além disso, é importante lembrar a distinção
entre o conflito constitucional e a divisão metafísica da pessoa
tal como definida anteriormente: A última não está implicada
na primeira. O conflito constitucional é certamente construído,
dentro da segunda topografia, de uma maneira diferente do que é dentro
da primeira; mas isto se dá porque as duas topografias empregam tipos
diferentes de caracterização das partes mentais (pois elas
são em princípio compatíveis), e não porque a
transição da primeira topografia para a segunda envolva necessariamente
um acréscimo de divisão pessoal. Se o fato da estrutura psicológica
de uma pessoa ser geradora de conflito divide ou não essa pessoa num
sentido metafísico, dependerá do caráter adicional das
partes constitucionalmente conflitantes.
Deve-se enfatizar que Freud revelou a interdependência funcional das
partes, da mesma forma que fez com o conflito. Elas estão, na segunda
topografia, relacionadas reciprocamente como estágios diferentes no
processo psicológico, onde 'processo' é definido em relação
ao organismo completo único. É certamente por causa disso -
porque cada uma delas requer uma outra a fim de constituírem um organismo
humano, e porque um organismo humano completo é pressuposto para sua
existência - que o conflito intrapsíquico é inevitável.
Deve-se também observar que um conflito psíquico muito importante
na segunda topografia ocorre dentro do ego, indicando que os critérios
intrapsicológicos de individualização de Freud não
foram exclusivamente conduzidos pelas ocorrências do conflito. O ego,
o id, e o superego, como partes da alma, guerreiam, mas eles não são
almas antagônicas uns dos outros20.
A bem conhecida crítica de Sartre a Freud, que enfoca a noção
(na teoria dos sonhos) do mecanismo de censura, considerou Freud, entretanto,
como comprometido com a resposta fortemente divisional. Sartre afirmou: "Através
da distinção entre o 'id' e o 'ego', Freud dividiu a totalidade
psíquica em dois. Eu sou o ego, mas eu não sou o id... Rejeitando
a unidade consciente da psiqué, Freud é forçado a inferir
em toda parte uma unidade imaginária"21. Sartre continuou a apontar
um paradoxo em tal concepção de pessoa. Mas será que
Freud está comprometido com uma concepção de pessoa
metafisicamente divisional do tipo que Sartre aponta, embora, talvez, contrário
às suas próprias intenções?
O que a questão finalmente aborda, pode-se sugerir, é isto:
será que é necessário - para se pensar o inconsciente,
ou qualquer entidade distinta postulada pela forma característica
da descrição psicanalítica -, tomar posse das crenças
da pessoa, como Sartre de fato supõe, e executar intenções
direcionadas à mente da pessoa, de modo a manifestar o seu próprio
ponto de vista, ponto de vista este que não é o mesmo de uma
pessoa como um todo? Se fosse assim, seria correto dizer que a pessoa é
profundamente dividida, pois então haveria dentro dela alguma coisa
que não merece ser descrita como um "mecanismo", mas sim como uma
"proto-pessoa". Um problema então poderia surgir ao se considerar
a gênese causal desta parte mental, e a suspeita poderia estabelecer
que a parte mental hipotética não é nada além
da pessoa como um todo sob outro nome (indicando algum tipo de confusão
lógica profunda na teoria psicanalítica) 22.
A fim de contestar esta crítica, um primeiro comentário importante
é o seguinte: a teoria psicanalítica está autorizada
a usar o conceito de uma disposição, num sentido que não
implique a presença de intenções dentro da mente. Em
sua forma desenvolvida, a metapsicologia psicanalítica de fato recorre
a ele (para tomar um exemplo fundamental, na teoria do sintoma da ansiedade
(1926d [1925], XX, 125-6), de modo a fazer com que a ativação
de uma disposição assuma o trabalho feito, na antiga explicação
teórica de Freud, pelo mecanismo de censura.
A adequação desse tipo geral de réplicas a Sartre leva-nos,
entretanto, a outra questão: até que ponto podemos seguir construindo
explicações baseadas na hipótese do inconsciente? O
que finalmente decide a questão entre Freud e Sartre é quanta
racionalidade, ou capacidade de pensamento estratégico, é investida
por Freud em sua descrição do inconsciente: se a racionalidade,
marcada pela capacidade de formular intenções, está
envolvida no pensamento inconsciente, então o inconsciente se aproxima
de uma proto-pessoa, mas se não está envolvida, então
ele não precisa ser assim concebido.
Embora se possa talvez argumentar em favor de Sartre que existe razão
para se pensar que, nas histórias de casos, Freud deve ter concebido
o inconsciente como capaz de intenção manipulatória,
há evidência conclusiva de que ele não pretendeu fazer
isso. Freud afirma categoricamente que, em todos os casos de motivação
inconsciente tratados pela teoria psicanalítica, uma firme distinção
deve ser traçada entre a influência do próprio inconsciente,
Ucs, cuja operação é sempre concebida através
da extrapolação do modelo não estratégico da
realização do desejo como um processo no qual representações
de objetos necessitados, mas indisponíveis, são formadas em
resposta direta à frustração, sem qualquer mediação
do pensamento; e a operação dos desejos no Pcs, que pode ter
um caráter estratégico, de tal modo que o último seja
dependente do primeiro. Assim, qualquer fenômeno que surja na psicanálise
aparentando manifestar estrategicalidade deve ser considerado como resultando
diretamente do Pcs e não do Ucs, e haverá uma expectativa de
que um desejo correspondente possa estar localizado no Ucs, algo que empresta
força ao desejo no Pcs e que é promovido por ele (num sentido
que não implica estrategicalidade) 23.
Agora podemos ver por que há uma diferença em princípio,
e não algo apenas nominal, entre o conceito de inconsciente e as várias
tentativas de Freud em conceitualizar o mesmo conjunto de fatos em termos
de uma segunda consciência, ou uma parte dissociada ou desagregada
(na expressão de Pierre Janet)24 da mente, que tem implicações
divisionais da pessoa. A alternativa de Freud é mais conceitualmente
conservadora do que a de Janet, e assim requer menor defesa filosófica.
(Do mesmo modo, ela não confronta a objeção de que nenhuma
descrição é dada à existência de compartimentos
isolados da vida mental).
A conclusão desta seção é que a teoria psicanalítica
pode se proteger contra todos os embaraços que Sartre tenta criar
para ela. Ela pode até mesmo oferecer, quando muito, uma resposta
fracamente divisional e, provavelmente, apenas negativa à questão
original da divisão da pessoa, ao se construir de um modo tal que
se apóie na atribuição de processos mentais não
intencionais.
4. Qual é a natureza dos estados atribuídos pela psicanálise?
Mais especificamente: dada a distintiva "característica especial do
sistema Ucs", como é que estados mentais conscientes são conceitualmente
estados mentais inconscientes?
A questão será aqui levantada em relação a apenas
quatro dos muitos aspectos possíveis de comparação.
(i) Os estados mentais inconscientes são proposicionais? Que eles
sejam é algo que pode muito bem ser questionado, em razão da
conexão entre o conceito de uma atitude proposicional e a idéia
da mente como um sistema que é limitado, em virtude da pretensão
à verdade de suas crenças, a como as coisas realmente são
no mundo. Os estados inconscientes são insensíveis à
realidade e não causam a ação de modo a refletir uma
compreensão da realidade. Os estados inconscientes não estão
diretamente ligados aos eventos externos do mesmo modo que as crenças,
nem estão indiretamente ligados a tais eventos do mesmo modo que os
desejos, em virtude de serem os acompanhantes lógicos e naturais das
crenças: os estados inconscientes não se associam às
crenças para produzir motivos para a ação. Freud escreve:
"Crença (e dúvida) é um fenômeno que pertence
inteiramente ao sistema do ego (o Cs) e não tem correlação
no Ucs" (1950a [1887-1902], I, 5).
Se os estados inconscientes não são estritamente atitudes
proposicionais, no entanto têm conteúdo: Nós os descrevemos
em termos de objetos e eventos concebidos como seus representantes. Também
assumimos que eles explicam a ação, ao imaginá-los como
causas intencionais da ação que, em algum sentido, "projeta"
os eventos que representam. Como poderia alguém intuir a natureza
de seu conteúdo? Podemos decidir chamar tais estados "preproposicionais".
Isto não implica que eles sejam "subpessoais" (como a "informação"
na psicologia cognitiva é geralmente concebida), do mesmo modo que
chamar de não proposicional o conteúdo de uma representação
visual tal como uma pintura não obrigaria alguém a dizer que
seu conteúdo seja incompreensível para um pessoa. O modelo
de representação visual parece nos fornecer a analogia correta,
e nos convida a dizer (no mínimo) que os estados inconscientes têm
conteúdo representacional somente no sentido em que eles se impõem
às pessoas de modo a introduzir pensamentos de eventos específicos
em suas mentes, e desse modo eles influenciam o conteúdo das atitudes
proposicionais desenvolvidas das pessoas. Esta proposta também concorda
com a concepção kleiniana de inconsciente como incorporando
um mundo interior, concebido como uma cena de fantasia.
(ii) Os estados inconscientes têm um caráter fenomenológico
? A questão da existência do inconsciente fenomenológico
naturalmente se origina do caso das emoções inconscientes.
Freud deu uma atenção especial às emoções,
dedicando-lhes para elas a terceira seção de seu ensaio de
1915 sobre o inconsciente. Entretanto, ele não pensou que as emoções
pudessem ser inconscientes num sentido irrestrito, porque considerou que
emoção implicava consciência (1915e, XIV, 177).
É questionável se Freud estava certo ao adotar tal concepção
conservadora de emoção inconsciente, dado especialmente que
também falou do inconsciente como um local de prazer e desprazer (1920g,
XVIII, pts. I-III). Um argumento para a possibilidade da emoção
inconsciente pode ser elaborado ao se repetir o argumento usado na seção
2 sobre o realismo psicológico básico: geralmente não
levamos em conta que é exatamente o fato da emoção aparecer
à consciência que tem força causal (que é o que
nós geralmente chamaríamos "sentimento"); ao invés disso,
preferimos dizer que esse aparecer é de alguma coisa com força
causal (separando a emoção do sentimento dela, do mesmo modo
como separamos a crença e sua manifestação em um episódio
de pensamento). Ao subtrairmos novamente o fato da manifestação,
chegamos à idéia de emoção inconsciente.
Podemos ainda falar de uma emoção inconsciente como sendo
eficaz em virtude de como é sentida? Podemos, desde que seja admitido
- o que é plausível - que haja um conceito de sentimento que
não implique um conhecimento consciente explícito. Assim, podemos
dizer que o que em parte geralmente dá a uma emoção
sua força causal é a propriedade fenomenológica que
é apreendida como possuída quando um sentimento a manifesta.
Isto fortalece a idéia de que há emoções inconscientes
no sentido forte, segundo o qual elas são estados cuja força
causal deriva em parte de sua fenomenologia (que são efetivas em certas
direções e não em outras, por causa de como são
sentidas).
A sugestão de que existem emoções inconscientes desenvolvidas
tem uma importância fundamental, na medida em que as propriedades fenomenológicas
(dor, prazer, e ansiedade inconscientes) parecem ser postuladas como determinantes
cruciais no curso dos processos inconscientes25. Que as propriedades fenomenológicas
tenham um grande valor causal no inconsciente é certamente o que delas
se esperaria, dado o seu caráter instintivo, infantil, fantástico,
e assim por diante.
(iii) Os estados inconscientes são estados teoréticos? O fato
de falarmos de "teoria psicanalítica" certamente por si só
não nos obriga a conceber as referências psicanalíticas
como atribuições de estados teoréticos, do mesmo modo
que falar de uma teoria das cores não nos compromete a conceber as
cores como propriedades teoréticas. Entretanto, pode parecer que a
afirmação inicial de Freud, segundo a qual a teoria psicanalítica
"considera todo o mental como sendo em primeiro lugar inconsciente", concorda
com a concepção de que os estados referidos pela psicanálise
são teoréticos, simplesmente porque teoricamente eles não
criam uma expectativa de consciência (e talvez nem sempre a levem em
conta) 26.
Entretanto, quatro considerações se opõem a esta sugestão.
A primeira é que os materiais conceituais postulados para introduzir
a compreensão dos conceitos psicanalíticos encontram-se (como
a segunda seção tentou enfatizar) prontamente acessíveis
na discussão comum acerca da mente.
Uma segunda consideração é que estados inconscientes
estão imbuídos de propriedades fenomenológicas, e são
propriedades de um tipo notadamente difícil para serem incorporados
na estrutura teorética. Considerando que o paradigma das descrições
da ação racional pode omitir referências a propriedades
fenomenológicas, ou ser reconstruído de modo a fazer referência
apenas a crenças sobre propriedades fenomenológicas, nada disso
é verdadeiro para as descrições psicanalíticas.
Uma terceira consideração é esta: na medida em que
adotamos uma perspectiva governada puramente por considerações
teoréticas, seremos conduzidos a postular estados definidos pelo seu
papel causal, em resposta a exigências formuladas exclusivamente em
terceira pessoa, e não impostas pela experiência em qualquer
sentido não teorético. Pode não haver nenhuma garantia
de que o que nos leva a fazer essa postulação apresentará
o tipo certo de relação íntima e ressonante com a experiência
que corretamente esperamos da linguagem psicológica e que a linguagem
psicanalítica parece possuir plenamente27.
A quarta e mais convincente consideração se segue da terceira,
e diz respeito ao modo do nosso conhecimento do inconsciente. Será
verdade que justamente porque o inconsciente é inconsciente (no sentido
descritivo), é que ele pode apenas ser fixado epistemicamente nas
duas conexões de terceira pessoa referidas na primeira seção,
e que a experiência é incapaz de desempenhar um papel direto,
não-teorético em restringir nosso pensamento sobre a mentalidade
inconsciente? Os dados da prática clínica, tanto implícita
quanto explicitamente, sugerem exatamente o contrário: O inconsciente
pode também ser fixado epistemicamente através de alguma coisa
que poderíamos chamar a "quase-manifestabilidade" dos estados inconscientes.
Em algum grau o inconsciente é introspectível: as pessoas que
têm sido submetidas à análise por um certo período
de tempo se tornam capazes de reconhecer eventos em seus inconscientes enquanto
eles ocorrem - ativações de impulsos, ataques de atividade
imaginativa, e assim por diante. Elas estão, assim, cientes desses
movimentos de sua mente de tal modo que podem identificar seu conteúdo
e direção, e podem talvez fazer alguma coisa para recalcá-los,
mas sem estarem aptas a controlá-los completamente (sem falar em iniciá-las).
Certamente, a quase-manifestabilidade não é uma via espistêmica
autonôma para o inconsciente; ela é condicional à adoção
anterior do analisando de uma perspectiva em terceira pessoa sobre si mesmo
no contexto psicanalítico. Apenas deste modo os conceitos psicanalíticos
podem ser acessíveis. Assim, devemos modificar a definição
anterior de mentalidade inconsciente como estados mentais que carecem de
possibilidades de manifestação; ou melhor, eles suscitam manifestação
num sentido condicional e mais refinado.
Assim, podemos sugerir que o conceito psicanalítico de inconsciente
parece se ajustar melhor a uma concepção realista da linguagem
psicológica. A afirmação de Freud (na citação
introdutória) de que a "questão quanto à natureza última
desse inconsciente não é mais sensata ou proveitosa do que
a mais antiga quanto à natureza do consciente" pode ser compreendida
como implicando que uma mudança para uma abordagem teórica
não é necessária para dar sentido à noção
de mentalidade inconsciente.
(iv) Os estados inconscientes "são possuídos" pela pessoa
a quem eles são atribuídos, do mesmo modo como são os
estados conscientes? Se deixamos de lado a manifestação (mesmo
que apenas as usuais e não todas), como é que poderemos considerar
os estados atribuídos a uma pessoa ainda como pertencente a ela, no
sentido pré-teorético comum dessa expressão, ao invés
de os considerarmos como parte de sua constituição "subpessoal"?
Somos deixados com uma questão difícil que está mais
uma vez ligada à identidade metafísica das pessoas.
A preocupação é que, no espectro entre um estado paradigmático
auto-imputado de dor e um estado imputado na psicologia cognitiva, os estados
psicanalíticos, devido à sua impossibilidade de auto-imputação
sem um processo de educação conceitual, aproximam-se demais
do último para serem considerados pertencentes à pessoa. Se
assim é, o que os mantém ligados à pessoa?
As razões para se continuar considerando os estados inconscientes
como possuídos pela pessoa são seguramente as seguintes: eles
não possuem nenhuma das características científicas
rígidas encontradas na psicologia cognitiva; eles participam intimamente
da vida mental, particularmente da vida emocional da pessoa, e fornecem as
fontes de motivação; e são quase-manifestáveis.
Parece ser aceitável se considerar a quase-manifestabilidade e as
outras características como condições suficientes para
o status pessoal dos estados mentais. Entretanto, alguém poderia tanto
negar que haja a quase-manifestação quanto rejeitá-la
como suficiente para o status pessoal. Certamente, há margem para
dúvida quanto a se os estados inconscientes são propriamente
possuídos, dado que - sendo em tal sentido radical não-escolhidos
- eles parecem não satisfazer uma das condições óbvias
para o tópico da responsabilidade pessoal. Talvez, porém, embora
não sejamos logicamente forçados a assumir responsabilidade
pelos estados inconscientes e seus efeitos imediatos, pois podemos nos recusar,
sem inconsistência estrita, a nos identificar com eles, pode ainda
ser realçado que, em assim o fazendo, uma distorção
menor está envolvida no todo do que aquela que resultaria ao nos dissociarmos
dos estados inconscientes negando a posse deles; parece mais fácil,
e mais intuitivamente seguro, estender os limites ou responsabilidades a
fim de acomodar o inconsciente do que limitar a categoria da posse psicológica
de modo a excluir estados de um tipo com significância patente para
as maneiras pelas quais reagimos e nos envolvemos com uma pessoa28.
Assim, convergimos, de modo aproximado, à seguinte concepção
do conceito de inconsciente de Freud: como um conjunto de estados com conteúdo
representacional distinguidos por aspectos especiais, que não precisam
ser considerados como atitudes proposicionais, caracteristicamente dotados
de propriedades fenomenológicas, atribuídas em um espírito
de puro realismo psicológico, e que ao menos algumas delas não
podem ser manifestadas no sentido comum, mas que não há razão
suficiente para recusar considerá-las como propriamente possuídas
pela pessoa; como compondo uma entidade cuja suposição é
consistente com as concepções comuns de unidade pessoal.
Notas
(*) in GARDNER, Sebastian. The Cambridge Companion to Freud. Editado por Jerome Neu. Cambridge University Press, 1991. p. 136-160. Tradução: Lígia Maria Cardoso. Revisão: Marco Antonio Frangiotti. Florianópolis, 2001
1. Os principais textos de Freud nos quais o conceito de
inconsciente é discutido são: "A Note on the Concept of the
Unconscious in Psycho-Analysis" (1912g, XII), "Repression" (1915d, XIV),
"The Unconscious" (1915e, XIX), "Some Elementary Lessons in Psycho-Analysis"
(1940b[1938], XXIII) e The Ego and the Id (1923b, XIX, pt. I). Eu tenho confiado
fortemente em Richard Wollheim, Freud (Glasgow: Fontana, 1971), cap. 6 e
o registro sucinto "Unconscious" em The Language of Psycho-Analysis de Jean
Laplanche e J. B. Pontalis, trad. Donald Nicholson-Smith, International Psycho-Analytical
Library, vol. 94 (Londres: Horgarth Press e o Institute of Psycho-Analysis,
1983).
2. As fontes de referência que ilustram essas características
do inconsciente são, pela ordem: sentidos descritivos versus sentidos
dinâmicos (1915e, XIV, 172-3); como fonte de motivação
(1895d [1893-5], II, 293); relacionado ao conflito (1895d, II, 121-4); resistência
(1914d, XIV, 16); transferência (1916-17 [1915-17], XVI, Conferência
XXVII); manifesto em sonhos (1915e, XIV, 187); relacionado à memória
(1895d [1893-5], II, pt. I); como neural (1950a, I, 234), como Ucs (1915e,
XIV, pt. II); repressão (1915d, XIV); exclui a segunda consciência
(1910a [1909], XI, 25-6 e 1910i, XI, 211-13); distinto do Pcs (1940a [1938],
XXIII, pt. IV); característica neural correspondente (1920g, XVIII,
34); autônomo (1925d [1924], XX, 32 e 1900a, V, 536); idéias
e instintos (1915d, XIV, 148 e 1915e, XIV, 177); emoção inconsciente
(1915e, XIV, pt. III); processo primário (1950a [1887-1902], I, 324-7
e 1900a, V, 598-601); princípio do prazer (1911b, XII); modelo estrutural
(1923b, XIX, pt. II).
3. Freud descreve a "equação" do que é consciente com
o que é mental como "ou um petitio principii pela qual se assume que
o que é físico é também necessariamente consciente;
ou de outro modo como uma questão de convenção, de nomenclatura"
(1915e, XIV, 167). Ele diz o mesmo em 1912g, XII, 260. Contudo, Freud concebeu
essa equação como sendo, de algum modo, a noção
aceita ou natural; ver 1940b [1938], XXIII, 283.
4. William James, por exemplo, fala da "não inteligibilidade" da
noção de mentalidade inconsciente, e afirma que "nós
achamos que podemos expressar todos os fatos observados de outros modos"
em The Principles of Psychology, vol. I (1890) (New York: Dover, 1980), p.175.
5. termo "manifestação" é colhido de Wollheim, The
Thread of Life (Cambridge: Cambridge University Press, 1984): ver pp.168-70.
Note também a coordenação de Wollheim dos conceitos
de consciência e inconsciência, ibid, p.45.
6. Do tipo expressado na declaração de James de que "a essência
do sentimento [pelo qual James parece significar qualquer estado psicológico
ou evento] é ser sentido, e como um existente psíquico sente,
do mesmo modo ele deve ser" (The principles of Psychology, vol. I, p. 163).
7. Ibid, cap. 6.
8. Ver New Essays on Human Understanding, trad. Peter Remnant e Jonathan
Bennett (Cambridge: Cambridge University Press, 1981), pp.53-6 e 164-7. Freud
reconheceu a existência desse, ou algo altamente semelhante, enigma
não patológico (1940a [1938], XXIII, 157 e 1940b [1938], XXIII,
283-4).
9. Ver An Essay Concerning Human Understanding (1690), ed. Peter H. Nidditch
(Oxford: Clarendon, 1975), I, iii, 20.
10. Ver Freud (1907a [1906], IX, 48; 1915d, XIV, 147-8; 1915e, XIV, 166;
e 1923b, XIX, 18). Uma distinção entre conteúdos inconscientes
inatos e adquiridos é feita em 1940a [1938], XXIII, 163: O anterior
inclui o núcleo "dificilmente acessível" do id. Filogeneticamente,
as fantasias primitivas inatas são identificadas por Freud no caso
de Wolfman: ver 1918b [1914], XVII, 120. Ver também 1921c, XVIII,
75 n1 e 1916-17 [1915-17], XVI, 368-71.
11. Sobre repressão, e essa distinção, ver a introdução
"Repression" em Laplanche e Pontalis, The Language of Psycho-Analysis.
12. "Assim nós obtemos nosso conceito do inconsciente da teoria da
repressão. O reprimido é o protótipo do inconsciente
para nós" (1923b, XIX, 15).
13. Ver Wollheim, Freud, p. 159 e James, The Principles of Psychology, vol.
I, pp.239-40.
14. Ver "Consciousness of Self and Knowledge of Self", 139-40, trad. Mary
Ellen e Nathaniel Lawrence, em Nathaniel Lawrence e Daniel O´Conner,
eds, Readings in Phenomenological Psychology (Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall,
1967).
15. Jon Elster, Introdução a The Multiple Self, ed. Jon Elster
(Cambridge: Cambridge University Press, 1985).
16. Isto está de acordo com a concepção de Wollheim:
ver "The Mind and the Mind´s Image of Itself", em On Art and the
Mind (Londres: Allen Lane, 1973).
17. Wollheim, Freud, pp. 174-5.
18. Ibid, p. 174.
19. Ver 1923b, XIX, pt. II; 1933a [1932], XXII, Conferência XXXI;
e 1940a [1938]: XXIII.
20. Ver a discussão de Brian O´Shaughnessy´s
deste tópico em "The Id and the Thinking Process", em Richard Wollheim
e James Hopkins, eds, Philosophical Essays on Freud (Cambridge: Cambridge
University Press, 1982)
21. Being and Nothingness: An Essay on Phenomenological Ontology, trad.
Hazel E. Barnes (Londres: Methuen, 1958), pp. 50-3. A mesma crítica
foi feita anteriormente por V. N. Volosinov em Freudianism: A Critical Sketch
(1927), trad. I. R. Titunik, ed. I. R. Titunik e neal H. Bruss (New York:
Academic Press, 1976), p.70.
22. É uma questão difícil se a teoria dos "sub-sistemas"
nos escritos sobre irracionalidade de Donald Davidson e David Pears oferece
uma resposta fortemente divisional ou apenas fracamente divisional à
questão original, e como isso se ajusta à crítica de
Sartre. Ver Davidson, "Paradoxes of Irrationality", em Wollheim e Hopkins,
eds., Philosophical Essays on Freud; "Deception and Division", em Elster,
ed. The Multiple Self; e Pears, Motivated Irrationality (Oxford: Oxford University
Press, 1984), cap. 5 e "Goals and Strategies of Self-deception", em Elster,
ed., The Multiple Self.
23. A grande maioria das interpretações clínicas de
Freud exemplificam esta estrutura. Que o Ucs não é capaz de
estratégia é também mostrado muito claramente pelo tratamento
de Freud aos casos ostensivos de raciocínio em sonhos (1900a, V, 418
e 445).
24. Ver Henri-Jean Barraud, Freud at Janet: Étude Comparée
(Toulouse: Bibliothéque de Psychologie Clinique, 1971), cap. 7.
25. Para ilustrações particularmente claras, ver Wollheim,
"The Bodily Ego", em Wollheim e Hopkins eds., Philosophical Essays on Freud,
e Donald Meltzer, Sexual States of Mind (Perthshire: Clunie, 1973).
26. As afirmações que puderam ser lidas como sugerindo teoreticalidade
devem ser encontradas em 1940a [1938] XXIII, 158-9 e 1925e [1924], XIX, 217.
27. Ver Wollheim, Freud, pp. 203-4.
28. Ver a discussão de Freud sobre a questão da responsabilidade
moral para o conteúdo dos sonhos (1925i, XIX, (B), 131-4).