ABSTRACT: In Wittgenstein's Tractatus, language and reality are strictly isomorphic domains, in the sense that they share a common "logical form". In order to explain the possibility of understanding the sense of a proposition, it has been customary to postulate a third instance - the thought -, that would act as a medium through which both domains get in touch, by means of projective relations. In consequence of this, a mental or psychological dimension is called to play an essential role in the account of how language can represent reality. In this paper I try to show that this does not help to solve the original problem, and that a philosophical explanation of how propositions get their sense must be formulated in purely formal terms, without resort to any mental facts or activities.
O débito geral do Tractatus para com os trabalhos de Frege e Russell está explicitamente reconhecido no Prefácio, e, quanto ao tópico em questão, seu ponto de partida é basicamente o mesmo que o daqueles autores. Deixando de lado as diferentes terminologias empregadas para descrever esse processo, e, mais ainda, as diferentes implicações semânticas e filosóficas de suas exposições, pode-se dizer que os três autores citados concordam em que a proposição deve ser entendida como um complexo formado por elementos mais simples, e o problema que se coloca para todos eles é explicar como a sua significação se determina a partir da significação de seus constituintes.
Partindo desse pressuposto comum, a novidade do tratamento wittgensteiniano da proposição consiste em atribuir-lhe um estatuto inteiramente distinto do das expressões ou nomes que a constituem. Nomes adquirem significação ao atuarem, na linguagem, como representantes de alguma coisa. No Tractatus, são signos cujo significado decorre de que nomeiam um certo objeto - mais exatamente, seu significado é o objeto que nomeiam. A proposição, por sua vez, é uma combinação de nomes, e seu sentido - isto é, aquilo que ela diz ser o caso - é que os objetos nomeados estão combinados na realidade do mesmo modo como os nomes estão combinados na proposição.
Quanto à proposição, porém, Wittgenstein insiste em que a maneira pela qual ela se torna significativa, ou adquire seu sentido, não pode ser a mesma pela qual os nomes obtém seu significado. A dificuldade de se pretender que a proposição constitui um signo complexo cuja significação, em analogia com os nomes, seria dada por um objeto complexo (um fato, suponhamos) torna-se visível quando se observa que um nome que não representa um objeto é ipso facto um signo desprovido de significação, ao passo que uma proposição não deixa de ser significativa pelo fato de não haver um complexo que lhe corresponda: ela se torna apenas falsa, mas não sem sentido (Tractatus, 3.24)1. E, de fato, a explicação de como ela é capaz de preservar seu sentido independentemente de quaisquer circunstâncias ligadas à existência ou inexistência de complexos constitui o cerne do tratamento da proposição apresentado no Tractatus.
Em 3.1431 Wittgenstein oferece uma ilustração que ele supõe capaz de nos levar a uma concepção iluminadora da essência da proposição. Ele nos pede que a imaginemos composta não de sinais escritos mas de objetos espaciais como mesas, cadeiras, livros. A disposição espacial dessas coisas, uma ao lado das outras, expressará - ele nos diz - o sentido da proposição. Essa ilustração permite discutir diversos aspectos importantes da noção de proposição.
Em primeiro lugar, um tal arranjo de coisas só consegue veicular um sentido, ou dizer-nos alguma coisa, se seus elementos não forem tomados em si mesmos, mas sim como representantes de outros objetos que compõem a situação cuja existência se pretende comunicar. Sem isso, aquelas coisas seriam simbolicamente inertes, e sua disposição espacial um mero fato bruto entre tantos outros de mesmo gênero no mundo. Também as proposições da linguagem, escrita ou falada, são em si mesmas apenas um arranjo de elementos (sons, traços no papel, etc.), e esses arranjos, enquanto tais, constituem apenas outro fatos brutos no mundo. A combinação desses elementos só se torna significativa pela conexão simbólica que eles mantêm com coisas distintas deles mesmos. Essas conexões constituem, no Tractatus, as relações projetivas entre a linguagem e a realidade, e são essas relações que permitem que o signo proposicional nos apareça como uma projeção da situação cuja existência é afirmada.
Em segundo lugar, o exemplo é revelador por acentuar o caráter arbitrário dos elementos que compõem o signo proposicional. Quaisquer outras coisas poderiam ser empregadas com o mesmo resultado, desde que estivessem sendo empregadas para nomear os mesmos objetos. Diferentemente do signo proposicional como um todo, cuja articulação interna nos exibe o sentido da proposição, os nomes são signos não-articulados cujo significado é puramente convencional; eles não nos mostram seu significado. Do mesmo modo, é arbitrário o papel atribuído às relações espaciais entre os elementos do signo proposicional: outras relações poderiam ser igualmente empregadas para o mesmo fim (sucessão temporal, diferenciações cromáticas, etc.), mas não vou estender-me sobre este ponto.
A identificação dos traços arbitrários presentes em qualquer sistema lingüístico concreto serve, no entanto, para isolar aquilo que não é arbitrário na linguagem e no simbolismo em geral. Um sistema de signos capaz de representar deve ter, para Wittgenstein, a mesma "multiplicidade lógica" da realidade que ele representa, isto é, as possibilidades de articulação de seus elementos devem corresponder exatamente às possibilidades de combinação dos objetos que esses elementos designam. A linguagem, entendida como um sistema de signos capaz de veicular todos os sentidos concebíveis, ou seja, capaz de expressar a existência de qualquer situação possível, deve portanto conter tantos nomes quantos são os objetos que compõem o arcabouço da realidade, e deve ser governada por regras sintáticas que espelham em seu funcionamento as combinações admissíveis daqueles objetos.
Este breve apanhado dos aspectos essenciais
do signo proposicional permite entender como a proposição
pode expressar um sentido independentemente da existência factual
de qualquer entidade que estivesse funcionando como seu significado. O
sentido da proposição, isto é, o que ela expressa,
é um fato, a saber, o fato de que certos objetos estão combinados
na realidade. Ela pode expressar isso porque ela mesma é
um fato: o fato de que, nela, certos nomes estão combinados. A única
exigência necessária para que ela esteja dotada de significação
é que esses nomes tenham significado, que eles designem entidades
existentes. Portanto, o único contato entre a proposição
e a realidade se dá através dos nomes que a compõem,
por meio das relações projetivas que conectam esses nomes
aos objetos que eles nomeiam. Disto se segue que o sentido da proposição
depende exclusivamente do significado de seus elementos constitutivos,
e não pressupõe a existência factual do complexo ou
combinação de objetos que ela afirma existir. Uma vez determinado
o significado dos nomes, o sentido da proposição segue-se
de imediato, sem qualquer consideração adicional.
A conflação dessas duas questões resulta em uma concepção - que poderíamos denominar "ingênua" - de como se estabelece, no Tractatus, o significado de um nome. O ponto de partida dessa explicação é normalmente o aforismo 3.11, onde se lê:
Wir benützen das sinnlich wahrnehmbare Zeichen (Laut- oder Schriftzeichen etc.) des Satzes als Projektion der möglichen Sachlage.
Die Projektionsmethode ist das Denken des Satz-Sinnes.A primeira sentença não é problemática e refere-se ao fato já mencionado de que o signo proposicional - ou seja, a proposição considerada em seus aspectos materiais visíveis ou audíveis - fornece a projeção de uma situação possível. Qual situação está sendo projetada depende, como já vimos, de quais são os objetos a que os elementos da proposição se associam pelas relações projetivas.
O problema que quero discutir prende-se à interpretação da segunda sentença. Literalmente, ela identifica o método de projeção ao ato de pensar o sentido da proposição. À primeira vista, parece que se está explicando o estabelecimento das relações projetivas pela intervenção de um ato mental - é como se o pensamento realizasse essa ligação entre as coisas e os signos que lhes servem de nomes. Essa leitura introduz uma dimensão psicológica, ou intencional no relato de como a proposição adquire sentido. É uma instância mental que atua estabelecendo essa ligação entre nome e objeto, e que transforma um traço por si mesmo inerte em um elemento dotado de significado.
Há várias dificuldades nessa concepção. Deixando de lado a complexa a questão da inexistência, para Wittgenstein, de um sujeito psicológico de representações, vou levantar apenas algumas objeções que me parecem mais facilmente compreensíveis.
Em primeiro lugar, lembre-se que, no Tractatus, o pensamento tem ele próprio um caráter lingüístico e, como qualquer proposição, constitui uma "figura dos fatos" (3). Também ele é supostamente um arranjo de elementos cuja natureza precisa Wittgenstein afirma desconhecer e cuja determinação, ademais, considera irrelevante do ponto de vista filosófico. Mas não importa a natureza desses elementos: se são entidades mentais ou sinapses neuronais. O que importa é que também sua organização só pode adquirir o poder de significar, ou de veicular um sentido, se seus elementos estiverem eles mesmos em relações projetivas com a realidade. Portanto, o pensamento, enquanto atividade simbólica, tem como pressuposto justamente essa relação projetiva com a realidade, e não pode legitimamente ser apresentado como o fundamento dessas relações.
Em segundo lugar, a concepção ingênua envolve a necessidade de algum tipo de apreensão, pelo pensamento, do objeto ao qual o nome se refere, para que se possa estabelecer a associação entre ambos. Mas recorde-se que os objetos do Tractatus (que constituem os referentes últimos dos nomes que ocorrem nas proposições) são entidades muito peculiares, e - seja qual for a sua natureza - não coincidem de modo algum com os objetos com que nos confrontamos em nossa experiência cotidiana. Não estamos em nenhum momento diretamente conscientes desses objetos, e não podemos identificá-los isoladamente. Dada essa circunstância, isto é a impossibilidade de identificar e re-identificar os referentes dos elementos do signo proposicional, torna-se ininteligível a hipótese de que esses elementos possam adquirir significado por meio de algum tipo de associação mental com entidades dadas à nossa experiência.
Algumas outras passagens do Tractatus
contribuem para nos convencer de que o que está em jogo na identificação
de um objeto é algo muito diverso do mecanismo presente nas chamadas
"definições por ostensão". Wittgenstein nos diz, por
exemplo, que, para conhecer um objeto, é preciso conhecer todas
as suas "propriedades internas" (2.0123 ss.), entendendo com isso suas
possibilidades de combinação com outros objetos. Isto está
ligado à sua suposição de que objetos não possuem
propriedades materiais intrínsecas, mas apenas propriedades formais
que se esgotam na determinação de quais são as combinações
de objetos em que eles podem ocorrer. Exclui-se portanto que a identificação
de um objeto possa ser feita com base em características factuais
desse objeto - ao contrário, aponta-se aqui para um processo muito
mais abrangente, segundo o qual cada objeto contém uma referência
interna a cada um dos outros, e a característica distintiva que
permite identificá-lo consiste em sua particular posição
no interior de um "espaço lógico" de combinações
que engloba, de uma só vez, a totalidade dos objetos.
Este ponto é devidamente ressaltado numa das poucas passagens do Tractatus (talvez mesmo a única) em que o problema recebe alguma atenção explícita. Em 3.263, Wittgenstein afirma que o significado dos signos simples (isto é, dos nomes) pode ser esclarecido por meio de "elucidações" (Erläuterungen), que são proposições que contêm esses signos. Mas, a seguir, em uma frase que tem causado merecidamente muita perplexidade entre os comentadores, ele observa que tais proposições só podem ser entendidas se o significado daqueles signos já for conhecido. Ou seja, saber o significado dos nomes exige entender proposições nas quais esses nomes ocorrem; para isso, porém, é preciso saber o que eles nomeiam. A passagem como um todo adquire a aparência de um círculo vicioso, que frustra a expectativa inicial de obter um esclarecimento de como os nomes podem adquirir significado.
Muito já se tem escrito com a finalidade de tornar inteligível essa passagem do Tractatus, e não posso aqui recapitular as várias tentativas de interpretação encontradas na literatura. Vou procurar apenas mostrar que, quando se adota uma outra leitura do aforismo 3.11 mencionado anteriormente, sobre a relação entre "método de projeção" e "pensar o sentido da proposição", uma boa parte da estranheza inicial pode ser dissipada.
Como entender corretamente o aforismo 3.11? O caminho, parece-me, é abandonar a idéia de que a existência das relações projetivas entre nomes e objetos nomeados possa ser, em qualquer sentido, explicada pelo pensamento. Fazê-lo equivale a tomá-las como relações de caráter quasi-factual, que podem vigorar ou não vigorar em função da atuação de uma instância externa que criaria a ligação entre os dois termos. Ao contrário, 3.11 deve ser entendida como afirmando que é precisamente a existência dessas relações que explica como é possível pensar o sentido da proposição. O que se tem aqui é uma espécie de definição do pensamento: pensar uma proposição, assim como enunciá-la, é empregá-la como projeção de uma situação possível. Não se trata de explicar o suposto mecanismo de projeção por meio da atividade mental de pensar o sentido da proposição, mas sim de empregar a noção filosófica e matematicamente mais clara de projeção para explicar a obscura noção de pensamento.
Uma vez que se reconheça que o problema filosófico da linguagem diz respeito às condições de sua possibilidade e não às condições concretas de sua utilização pelo zoon phonanta, teremos avançado bastante na resolução das dificuldades acima expostas. O ser humano possui a faculdade de construir linguagens pelas quais quaisquer sentidos podem ser expressos, quaisquer situações possíveis podem ser precisamente descritas (4.002). Mais do que o mecanismo envolvido nessa construção, Wittgenstein se interessa pelo que torna possível essa expressão de sentidos perfeitamente determinados, e o associa ao requisito de que signos simples, ou nomes, sejam possíveis (3.23, 4.0312), de que possa, em princípio, existir uma organização de signos que, mediante as regras sintáticas que governam sua associação, constitua um perfeito espelhamento das relações que podem vigorar no domínio dos objetos.
É claro que, nesse quadro, é totalmente descabido perguntar quais signos constituem os nomes de quais objeto, e, conseqüentemente, como nós chegamos a atribuir-lhes significado. A linguagem em sua forma completamente analisada, na qual signos simples ligam-se imediatamente aos objetos, aos constituintes últimos da substância do mundo, não existe concretamente em parte alguma; é apenas sua possibilidade que é afirmada no Tractatus, enquanto condição transcendental para a existência do fenômeno da representação. À pergunta sobre qual seria o "real" nome de um objeto só se poderia responder, segundo o Tractatus, dizendo-se que ele é qualquer signo que ocupa na linguagem uma posição formalmente idêntica à que um objeto ocupa no campo de suas possibilidades de combinação com outros objetos. Rigorosamente falando, os nomes, enquanto signos determinados, são dispensáveis para o funcionamento da linguagem: o sentido de uma proposição pode ser precisamente veiculado mesmo quando ela se apresenta sob a forma completamente generalizada, consistindo apenas de variáveis (5.526). Tudo o que há de relevante para a função simbólica esgota-se totalmente nos aspectos formais que regem a articulação dos nomes, nas regras de sintaxe que os tornam capazes de mimetizar as propriedades combinatórias dos objetos.
A natureza das relações projetivas
entre a linguagem e a realidade pode agora ser melhor explicada. Elas não
envolvem qualquer associação a posteriori entre signo
e significado, mas estão dadas de antemão, em virtude do
isomorfismo, no sentido matemático, entre os dois domínios.
Esse isomorfismo consiste na existência de "lugares sintáticos"
no sistema abstrato da linguagem que correspondem univocamente às
posições ocupadas pelos objetos no espaço lógico
de suas possíveis combinações. Desse modo, se é
verdade que o sentido de uma proposição se determina a partir
do significado de seus constituintes, esse significado está determinado
exclusivamente pela possibilidade sintática da ocorrência
desses constituintes em proposições dotadas de sentido. Voltando
ao aforismo 3.263, vemos agora que, longe de descrever uma situação
paradoxal em que dois processos distintos parecem exigir, cada qual, a
ocorrência prévia do outro, ele surge como a expressão
do fato de que a projeção de uma situação pelo
signo proposicional resulta essencialmente das propriedades formais desse
signo, e envolve uma referência interna a todas as demais
proposições em que seus constituintes podem ocorrer; em última
análise, à linguagem como um todo. Enquanto estivermos dominados
pela idéia de que uma proposição deve adquirir seu
sentido de forma isolada das demais proposições, podemos
razoavelmente imaginar que ela necessitaria de algum auxílio para
essa tarefa, que seria preciso estender externamente algumas linhas ligando
os signos que nela ocorrem aos objetos, para que ela pudesse ser "guiada"
em seu trajeto rumo à realidade. Só assim, pareceria, ela
seria capaz de expressar uma situação definida, uma situação
que envolve tais e tais objetos, e não outros. Quando aceitamos,
porém, todas as implicações do princípio do
contexto presentes no Tractatus, em especial, que é só
no interior da linguagem como um todo que qualquer proposição
adquire sentido, compreendemos que esse auxílio externo é
desnecessário. Pois, em virtude da identidade de forma lógica
entre a linguagem e a realidade, em virtude do isomorfismo entre a totalidade
das possibilidades combinatórias dos nomes e a dos objetos, só
há uma maneira pela qual se pode estabelecer uma correspondência
entre os elementos dos dois domínios. Ao se determinar, portanto,
o lugar preciso da proposição no sistema formal da linguagem
estará determinada ipso facto a referência precisa
dos nomes que a compõem, e, conseqüentemente, seu sentido,
a situação definida cuja existência ela veicula, sem
a necessidade de recorrer a uma instância externa para criar a ligação
entre os nomes e suas referências.
Em minha interpretação de como, no Tractatus, as proposições adquirem seu sentido procurei criticar a introdução do pensamento como algo que estabelece a conexão entre os elementos do signo proposicional e os aspectos da realidade a que eles se referem, insistindo em que o significado de um signo está determinado exclusivamente pelas regras sintáticas que governam seu emprego na linguagem, e que nenhuma associação factual com o objeto é necessária e nem mesmo possível. Isto leva-me, para finalizar, a uma observação sobre tentativas recentes de avançar nesta linha de raciocínio até o ponto de expurgar do Tractatus a própria noção de uma realidade extra-lingüística. Nessa concepção, o significado dos nomes se esgota totalmente no interior da própria linguagem, e não se supõe que eles estejam "no lugar" de alguma coisa, que sejam representantes de entidades exteriores à linguagem.
Por engenhosa que possa ser, na medida em que consegue dar conta de muitas questões ainda problemáticas na interpretação do Tractatus, essa posição não me parece sustentável e não deve ser tomada como uma conseqüência do que estou propondo aqui. O principal problema é como dar conta, nesse caso, da questão da verdade de uma proposição, que Wittgenstein insiste ser determinada pela comparação com a realidade, isto é por referência a uma instância não-lingüística. É verdade que o desvendamento da essência da proposição foi considerado por Wittgenstein, na passagem datada de janeiro de 1915 que citei no início, como constituindo "toda a sua tarefa", mas é relevante notar que ele complementa imediatamente essa afirmação dizendo que essa tarefa se identifica à de especificar a essência de todos os fatos dos quais a proposição é uma figura, a essência de todo o ser. E ainda, que poucos meses depois ele tenha registrado em seus cadernos de notas as seguintes palavras: "O grande problema em torno do qual gira tudo o que escrevo é: Há uma ordem a priori no mundo e, se houver, qual é ela?"
As observações de cunho ontológico
no Tractatus, longe de constituírem apenas um material introdutório
destinado a ser dialeticamente superado no decorrer do livro, fazem parte
integrante do seu sistema e surgem mesmo em passagens tão avançadas
da exposição como 5.471, onde se associa mais uma vez o problema
de fornecer a essência da proposição ao desvendamento
da essência do mundo. Seja como for que se interprete o posterior
desenvolvimento filosófico de Wittgenstein, é indubitável
que, no Tractatus, está firmemente presente o viés
realista que admite uma realidade exterior e independente de nossa linguagem
ou nosso pensamento, e o desafio de explicar a relação entre
esses dois domínios.