O Inconsciente

  1. O adjetivo inconsciente é por vezes usado para exprimir o conjunto dos conteúdos não presentes no campo efetivo da consciência, isto num sentido 'descritivo' e não 'tópico', quer dizer, sem se fazer discriminação entre os conteúdos dos sistemas rpé-consciente e inconsciente.
  2. No sentido 'tópico', inconsciente designa um dos sistemas definidos por Freud no quadro da sua primeira teoria do aparelho psíquico. É constituído por conteúdos recalcados aos quais foi recusado o acesso ao sistema pré-consciente-consciente pela ação do recalque. Podemos resumir do seguinte modo as características essenciais do Inconsciente como sistema (ou Ics): a) as seus 'conteúdos' são 'representantes' das pulsões; b) estes 'conteúdos' são regidos pelos mecanismo específicos do processo primário, principalmente a condensação e o deslocamento; c) fortemente investidos pela energia pulsional, procuram retornar à consciência e à ação; mas só podem Ter acesso ao sistema Pcs-Cs nas formações de compromisso, depois de terem sido submetidos às deformações da censura. D) são, mais especialmente, desejos da infância que conhecem uma fixação no inconsciente.A abreviatura Ics designa o inconsciente (Das Unbewusste) sob a sua forma substantiva como sistema: ics é a abreviatura do adjetivo inconsciente (unbewusst) enquanto qualifica em sentido estrito os conteúdos do referido sistema.
  3. No quadro da Segunda tópica freudiana, o termo inconsciente é usado sobretudo na sua forma adjetiva: efetivamente, inconsciente deixa de ser o que é próprio de uma instância especial, visto que qualifica o id e, em parte, o ego e o superego. Mas convém notar: a) as características atribuídas ao sistema Ics na primeira tópica são de um modo geral atribuídas ao id na Segunda; b) a diferença entre o pré-consciente e o inconsciente, embora já não esteja baseada numa distinção intersistêmica, persiste como distinção intra-sistêmica (o ego e o superego são em parte pré-conscientes e em parte inconscientes).

Se fosse preciso concentrar numa palavra a descoberta freudiana, seria incontestavelmente na palavra inconsciente. Por isso, nos limites da presente obra, não pretendemos historiar esta descoberta nos seus antecedentes pré-freudianos, na sua gênese e nas suas elaborações sucessivas em Freud. Vamos limitar-nos, num desejo de clarificação, a sublinhar alguns traços essenciais que a própria difusão do termo tem freqüentemente apagado.

I) O inconsciente freudiano é, em primeiro lugar, indissoluvelmente uma noção tópica e dinâmica, que brotou da experiência do tratamento. Este mostrou que o psiquismo não é redutível ao consciente e que certos 'conteúdos' só se tornam acessíveis à consciência depois de superadas certas resistências; revelou que a vida psíquica era '... cheia de pensamentos eficientes embora inconscientes, e que era destes que emanavam os sintomas';1 levou a supor a existência de 'grupos psíquicos separados' e, de modo mais geral, a admitir o inconsciente como um 'lugar psíquico' particular que deve ser concebido não como uma Segunda consciência, mas como um sistema que possui conteúdos, mecanismos e, talvez, uma 'energia' específica.

II) Quais serão esses conteúdos? A) No artigo O Inconsciente, Freud denomina-os 'representantes da pulsão'. Com efeito, a pulsão, na fronteira entre o somático e o psíquico, está aquém da oposição entre consciente e inconsciente; por um lado, nunca se pode tornar objeto da consciência e, por outro, só está presente no inconsciente pelos seus representantes, essencialmente o 'representante-representação'. Acrescente-se que um dos primeiros modelos teóricos freudianos define o aparelho psíquico como sucessão de inscrições (Niederschriften) de sinais,2 idéia retomada e discutida nos textos ulteriores. As representações inconscientes são dispostas em fantasias, histórias imaginárias em que a pulsão se fixa e que podemos conceber como verdadeira encenações do desejo; b) a maior parte dos textos freudianos anteriores à Segunda tópica assimilam o inconsciente ao recalcado. Note-se, todavia, que esta assimilação não deixa de Ter restrições; vários textos reservam lugar para conteúdos não adquiridos pelo indivíduo, filogenéticos, que constituiriam o 'núcleo do inconsciente'.3 Essa idéia completa-se na noção de fantasias originárias como esquemas pré-individuais que vêm informar as experiência sexuais infantis do sujeito; c) outra assimilação classicamente reconhecida é a do inconsciente ao infantil em nós, mas também aqui se impõe uma reserva. Nem todas as experiências infantis estão destinadas, na medida em que seriam naturalmente vividas segundo o modo daquilo a que a fenomenologia chama consciência irreflexiva, a se confundirem com o inconsciente do sujeito. Para Freud, é pela ação do recalque infantil que se opera a primeira clivagem entre o inconsciente e o sistema Pcs-Cs. O inconsciente freudiano é constituído - apesar de o primeiro tempo do recalque originário poder ser considerado mítico; não é uma vivência indiferenciada.

III) Sabe-se que o sonho foi para Freud o caminho por excelência da descoberta do inconsciente. Os mecanismos (deslocamento, condensação, simbolismo) evidenciados no sonho em A Interpretação de Sonhos (Die Traumdeutung, 1900) e constitutivos do processo primário são reencontrados em outras formações do inconsciente (atos falhos, lapsos, etc.), equivalentes aos sintomas pela sua estrutura de compromisso e pela sua função de 'relaização de desejo'.

Quando Freud procura definir o inconsciente como sistema, resume assim as suas característica específicas:4 processo primário (mobilidade dos investimentos, característica da energia livre); ausência de negação, de dúvida, de grau de certeza; indiferença perante a realidade e a regulação exclusivamente pelo princípio de desprazer-prazer (visando este restabelecer pelo caminho mais curto a identidade de percepção).

IV) Freud procurou finalmente fundamentar a coesão própria do sistema Ics e a sua distinção radical do sistema Pcs através da noção econômica de uma 'energia de investimento' própria de cada um dos sistemas. A energia inconsciente aplicar-se-ia a representações por ela investidas ou desinvestidas, e a passagem de um elemento de um sistema para o outro produzir-se-ia por desinvestimento por parte do primeiro e reinvestimento pelo segundo.

Mas esta energia inconsciente - e está é uma dificuldade da concepção freudiana - ora aparece como uma força de atração exercida sobre representações e resistente à tomada de consciência (é o que acontece na teoria do recalque, onde a atração pelos elementos já recalcados vem colaborar com a repressão do sistema superior),5 ora como uma força que tende a fazer emergir os seus 'derivados' na consciência e só seria contida graças à vigilância da censura.6

V) As considerações tópicas não devem fazer-nos perder de vista o valor dinâmico do inconsciente freudiano, que o seu autor tantas vezes sublinhou; devemos, pelo contrário, ver nas distinções tópicas o meio de explicar o conflito, a repetição e as resistências.

Sabe-se que a partir de 1920 a teoria freudiana do aparelho psíquico foi profundamente remodelada e foram introduzidas novas distinções tópicas que já não coincidiam com as do inconsciente, pré-consciente e consciente. Com efeito, se é verdade que reencontramos na instância do id as principais características do sistema Ics, também nas outras instâncias - ego e superego - é reconhecida uma origem e uma parte inconscientes.

Notas

1 Freud, S. (1912): A Note on the Unconscious in Psycho-Analysis, G. W., VIII, 3433; S.E., XII, 262; Fr., 13.

2 Freud, S. (1896): Aus den Anfängen der Psychoanalyse, carta a Fliess de 06/12/1896, Al., 185-6.

3 Freud, S. (1915): Das Unbewusste, G. W., X. 294.

4 Ibid., 285-8.

5 Freud, S. (1915): Die Verdrüngung, G. W. X, 250-1.

6 Freud, S. (1915): Das Unbewusste, G. W., X 280.

in Laplanche, J. & Pontalis, J.B. (1998): Vocabulário de Psicanálise, São Paulo: martins Fontes.

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