Da incoerência de nossas ações
Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592)
(In: Ensaios, Michel de Montaigne; tradução de Sérgio
Milliet, 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980, pp. 159-162)
Os que se dedicam à crítica das ações humanas
jamais se sentem tão embaraçados como quando procuram agrupar
e harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se
contradizem comumente e a tal ponto que não parecem provir de um
mesmo indivíduo. Mário, o Jovem, ora parece filho de Marte
ora filho de Vênus. Dizem que o Papa Bonifácio VII assumiu
o papado como uma raposa, conduziu-se como um leão e morreu como
um cão. E quem diria que Nero, essa verdadeira imagem da crueldade,
como lhe apresentassem para ser assinada, de acordo com a lei, a sentença
contra um criminoso, observou: – Prouvera a Deus que eu não
soubesse escrever! – tanto lhe apertava o coração condenar
um homem à morte. Há tantos exemplos semelhantes, e tão
facilmente os encontrará sozinho quem quiser, que estranho ver por
vezes gente de bom senso procurando juntar tais contradições,
mesmo porque a irresolução me parece ser o vício mais
comum e evidente de nossa natureza, como o atesta este verso de Públio,
o satírico: “Má opinião, a de que não se pode
mais mudar.”
É aparentemente possível julgar um homem pelos
fatos mais comuns de sua vida; mas, dada a instabilidade natural de nossos
costumes e opiniões, pareceu-me muitas vezes que os melhores autores
erravam em se obstinar a dar de alguém uma idéia bem assentada
e lógica. Adotam um princípio geral e de acordo com este
ordenam e interpretam as ações, tomando o partido de as dissimular
quando não as deformam para que entrem dentro do molde preconcebido.
O imperador Augusto escapou-lhes; deparamos nesse homem com uma tal flagrante
diversidade de ações, tão inesperada e contínua
no decurso de sua existência, que os mais ousados juízes,
renunciando a julgá-lo em seu conjunto, tiveram de deixá-lo
assim indefinido. Acredito que a constância seja a qualidade
mais difícil de se encontrar no homem, e a mais fácil a inconstância.
Quem os julgasse pormenorizadamente de acordo com seus atos, um por um,
estaria mais apto a dizer a verdade a seu respeito.
Fora difícil encontrar em toda a antigüidade uma
dúzia de homens que tenham orientado sua vida em obediência
a determinado princípio, o que é o fim principal da sabedoria.
A qual, segundo um autor antigo [Sêneca], se resume em uma frase
que enfeixa, em uma só, todas as regras da vida: “querer e não
querer são sempre a mesma e a única coisa”. E poderia acrescentar:
à condição de que o que queremos ou não queremos
seja justo, pois, se não o é, impossível se faz que
permaneça constantemente a mesma coisa. Efetivamente, sei de há
muito que o vício nada mais é senão desregramento
e falta de medida e por conseguinte não o podemos imaginar constante.
Atribui-se a Demóstenes a seguinte máxima: a virtude,
qualquer que seja, consiste de início em recolhimento e deliberação;
a constância, a seguir, comprova-lhe a perfeição. Em
refletindo seguimos sempre o melhor caminho, mas ninguém pensa antes
de agir. “Desdenha o que pediu, volta ao que largou e, sempre hesitante,
contradiz-se sem cessar” (Horácio).
Nossa maneira habitual de fazer está em seguir os nossos
impulsos instintivos para a direita ou para a esquerda, para cima ou para
baixo, segundo as circunstâncias. Só pensamos no que queremos
no próprio instante em que o queremos, e mudamos de vontade como
muda de cor o camaleão. O que nos propomos em dado momento, mudamos
em seguida e voltamos atrás, e tudo não passa de oscilação
e inconstância. “Somos conduzidos como títeres que o fio manobra”
(Horácio).
Não vamos, somos levados como objetos que flutuam, ora
devagar, ora com violência, segundo o vento: “Acaso não vemos
todo mundo indeciso; uns procurando sem descontinuar, outros mudando de
lugar, como para largar uma carga pesada demais?”(Lucrécio). Cada
dia nova fantasia, e movem-se as nossas paixões de acordo com o
tempo: “o pensamento dos homens assemelha-se na terra aos cambiantes raios
de luz com que Júpiter a fecunda”(Cícero).
Hesitamos em tomar partido; nada decidimos livremente, de maneira
absoluta, coerente. Se alguém traçasse e estabelecesse determinadas
leis de conduta e regime político de vida, veríamos brilhar
em seus atos e atitudes uma harmonia cabal e em seus costumes uma ordem
e uma correlação evidentes. Empédocles observa a seguinte
contradição entre os agrigentinos: alguns se entregam aos
prazeres como se devessem morrer no dia seguinte e outros edificam como
se a vida não tivesse de acabar jamais. O plano de vida fora entretanto
fácil de se estabelecer, como se vê em Catão, o Jovem:
quem nele toca uma tecla, toca todas, pois há nele uma harmonia
de sons bem afinados que nunca se entrechocam. Não seguimos, nós
outros, tão sábio exemplo e cada uma de nossas ações
decorre de um juízo específico. E na minha opinião
seria melhor procurar-lhes as causas nas circunstâncias do momento
sem mais aprofundada pesquisa e sem tirar delas quaisquer conseqüências.
Durante as desordens que agitaram nosso pobre país, disseram-me
que uma jovem, bem perto do local onde eu me encontrava, se jogara pela
janela a fim de escapar à brutalidade de um soldado que hospedava.
Não teve morte instantânea e para se acabar tentou cortar
o pescoço com uma faca, o que não a deixaram fazer. Nesse
triste estado, confessou que o soldado nada mais fizera do que lhe declarar
seu amor, solicitá-la e presenteá-la, mas ela temera que
chegasse a violentá-la. Daí seus gritos, sua atitude, o sangue
derramado, como se se tratasse de uma nova Lucrécia. Entretanto,
eu soube que antes e depois dessa ocorrência sempre se mostrou muito
menos arisca. Como dizem por aí, “por mais belo e decente que sejas,
se não és aceito pela tua amada, não concluas, sem
mais amplas informações, ser ela de uma castidade a toda
prova; isso não impede que o arrieiro tenha a sua possibilidade”.
Antígono, que se afeiçoara a um de seus soldados
por causa de sua valentia e coragem, mandou que o médico tratasse
de uma doença que o atormentava havia muito. Observando, após
a cura, que o homem se expunha muito menos nos combates, perguntou qual
a razão dessa mudança que o tornara poltrão: “Vós
mesmo, Sire, porquanto me libertastes dos males que faziam com que eu não
apreciasse a vida.”
Um soldado de Luculo fora roubado pelo inimigo. Para se vingar
executou contra ele um golpe de mão notável, amplamente compensador
de seus prejuízos. Luculo que ficara com excelente opinião
dele quis empregá-lo em uma arriscada expedição e,
afim de decidi-lo, usava todos os meios de persuasão, “com palavras
capazes de entusiasmar os mais tímidos”(Horácio). Mas o soldado
atalhou: “Mandai algum soldado miserável que tenha sido roubado.”
E recusou peremptoriamente. Como diz Horácio: “Irá quem tiver
perdido a bolsa.”
Maomé II admoestara violentamente Chasan, chefe de seus
janízaros cuja tropa fora desfeita pelos húngaros, sendo
que se conduzira ele próprio covardemente durante o combate. Como
única resposta, Chasan, sozinho, sem precisar de ninguém,
precipitou-se furioso, espada na mão, contra o primeiro pelotão
inimigo que percebeu e desapareceu em poucos instantes como se fora por
ele tragado. Nesse ato, parece que foi movido menos pelo desejo de se reabilitar
do que em virtude de uma reviravolta em seus sentimentos: Não agia
sob o impulso da coragem moral e sim por despeito. Quem ontem vistes tão
temerário, não vos espanteis em vê-lo poltrão
no dia seguinte. A cólera, a necessidade, a companhia ou o vinho,
ou o som de uma trombeta, terão feito de suas tripas coração.
Não foi o raciocínio que lhe deu coragem: foram as circunstâncias.
Não nos espantemos, pois, de ver que mudou ao mudarem elas. Essa
variação e essa contradição, tão comuns
em nós, levaram muitas pessoas a pensar que possuímos duas
almas, ou duas forças que atuam cada qual num sentido, uma no sentido
do bem e outra no do mal. Uma só alma e uma só força
não poderiam conciliar-se com tão repentinas variações
de sentimentos.
Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme
o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em conseqüência
da instabilidade da posição em que esteja. Quem se
examina de perto raramente se vê duas vezes no mesmo estado. Dou
à minha alma ora um aspecto, ora outro, segundo o lado para o qual
me volto. Se falo de mim de diversas maneiras é porque me olho de
diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam,
no fundo como na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela,
taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente,
mentiroso, sincero, sábio, ignorante, liberal e avarento, e pródigo,
assim me vejo de acordo com cada mudança que se opera em mim. E
quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si,
e até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância.
Não posso aplicar a mim um juízo completo, sólido,
sem confusão nem mistura, nem o exprimir com uma só palavra.
“Distingo” é o termo mais encontradiço em meu raciocínio.
Embora acredite sempre que é preciso falar bem do que
é justo e interpretar com simpatia o que a tal juízo se presta,
nossa condição é tão singular que não
raro o próprio vício nos impele a bem fazer (se o bem não
se julgasse unicamente pela intenção que o determina). Daí
não se dever tirar de um ato corajoso a conclusão de que
um valente o praticou. Valente será efetivamente quem o for sempre
em todas as ocasiões. Se fosse um hábito e não u gesto
imprevisto, a virtude faria que um homem mostrasse sempre igual resolução;
seria o mesmo, só ou acompanhado, na justa como no campo de batalha.
Suportaria esse homem, com igual atitude uma enfermidade em seu leito e
um ferimento na guerra e não temeria mais a marte em seu lar do
que em um assalto. Não o veríamos lançar-se através
de uma brecha com insopitável bravura e em seguida chorar como uma
mulher a perda de um processo ou de um filho; ser covarde diante da infâmia
e resoluto na miséria, ter medo da navalha do barbeiro e desafiar
a espada do adversário. Em tais casos, a ação é
louvável, não o homem. Há gregos, diz Cícero,
que tremem à vista do inimigo e se mostram tenazes quando enfermos,
e tem-se o inverso nos cimbros e nos celtiberos: “Nada pode ser estável
se não parte de um princípio sólido”(Cícero).
Não há maior valentia, no gênero, do que
a de Alexandre, o Grande, e no entanto não se verifica em tudo.
Por incomparável que seja, tem suas falhas, o que o faz perturbar-se
à mais insignificante suspeita de conjuras e o leva a incrível
e absurda crueldade na repressão e a temores em nada compatíveis
com sua apreciação habitual das coisas. A superstição
que lhe era peculiar participa também da pusilanimidade, e a exagerada
penitência que se impõe a si mesmo após o assassínio
de Clito prova igualmente a desigualdade de sua coragem. Somos um amontoado
de peças juntadas inarmonicamente e queremos que nos honrem quando
não o merecemos. A virtude vale por si mesma; se para outro fim
tomamos a sua máscara, logo ela no-la arranca da cara. Quando nossa
alma se impregna dela, forma ela uma espécie de verniz fortemente
adesivo que só se tira com a própria pele. Eis por que para
julgar um homem é preciso seguir suas pegadas, penetrar sua vida,
e se não deparamos com a constância alicerçando seus
atos, “com um plano de vida bem ponderado e previsto”(Cícero), se
sua marcha, ou antes, seu caminho (pois é lícito acelerar
ou diminuir o passo) se modifica segundo as circunstâncias, abandonemo-lo.
Como a ventoinha gira de acordo com o vento, assim reza a divisa de nosso
Talbot.
Não é de espantar, diz um autor antigo, que o acaso
tenha tanta força sobre nós, pois por causa dele é
que existimos. Quem não orientou sua vida, de um modo geral, em
determinado sentido, não pode tampouco dirigir suas ações.
Não tendo tido nunca uma linha de conduta, não lhe será
possível coordenar e ligar uns aos outros os atos de sua existência.
De que serve fazer provisão de tintas se não se sabe que
pintar? Ninguém determina do princípio ao fim o caminho que
pretende seguir na vida; só nos decidimos por trechos, na medida
em que vamos avançando. O archeiro precisa antes escolher o alvo;
só então prepara o arco e a flecha e executa os movimentos
necessários; nossas resoluções se perdem porque não
temos um objetivo determinado. O vento nunca é favorável
a quem não têm um porto de chegada previsto. Não estou
de acordo com o juízo que se fez, ao assistir a uma tragédia
de Sófocles, declarando-o, contra a opinião de seu filho,
capaz de administrar seus bens. Não acho tampouco muito mais lógico
o que fizeram os párias enviados com missão de reformar o
governo dos milésios. Depois de visitar a ilha, observando o cultivo
cuidadoso da terra, a boa ordem das propriedades, e registrando os nomes
dos proprietários, considerando que a atenção
e a eficiência demonstradas na administração de seus
negócios particulares eram uma garantia de que de igual modo iam
gerir os negócios do Estado.
Somos todos constituídos de peças e pedaços
juntados de maneira casual e diversa, e cada peça funciona independentemente
das demais. Daí ser tão grande a diferença entre nós
mesmos quanto entre nós e outrem: “Crede-me, não é
coisa fácil conduzir-se como um só homem”(Sêneca).
Se a ambição pode impelir o homem a ser valente, sóbrio,
liberal e mesmo justo, se a avareza pode dar coragem a um caixeiro criado
no ócio e na indolência e infundir-lhe bastante confiança
para que se lance à aventura em frágil navio, à mercê
de Netuno, e lhe ensina a discrição e a prudência;
se a própria Vênus arma de resolução a audácia
o jovem ainda sob a autoridade paterna, e faz com que se mostre impudica
a virgem de coração terno ainda sob a égide de sua
mãe:
“Passando furtivamente entre os guardas que dormem, protegida por Vênus,
vai a jovem sozinha, dentro da noite, juntar-se a seu amante”(Tibulo),
se assim é, não deve um espírito refletido julgar-nos
pelos nossos atos exteriores; cumpre-lhe sondar as nossas consciências
e ver os móveis a que obedecemos. É uma tarefa elevada e
difícil e desejaria por isso mesmo que menor número de pessoas
se dedicassem a ela.