Sobre o Princípio da Racionalidade em Freud

Karl Popper

Diz-se freqüentemente que Freud descobriu a irracionalidade humana; esta, porém, é uma interpretação falsa e, além disso, muito superficial. A teoria freudiana da origem normal das neuroses se insere perfeitamente em nosso esquema, a saber, um esquema de explicações construídas com a ajuda de um modelo situacional que se ajusta ao princípio da racionalidade. De fato, Freud explica uma neurose como uma atitude adotada na infância precoce, porque ela se constituiu na melhor saída disponível para escapar de uma situação que a criança fora incapaz de compreender e a qual não sabia enfrentar. Assim, a adoção de uma neurose deve-se a um ato racional da criança - tão racional, por exemplo, que o ato de um homem adulto que, ao tentar evitar o perigo de ser atropelado por um carro, é então derrubado por um ciclista. Este é um ato racional no sentido de que a criança escolheu aquilo que lhe pareceu se impor imediatamente, de modo evidente, ou talvez aquilo que se constituiu na possibilidade menos intolerável dentre as duas possibilidades existentes.

Do método freudiano em terapia eu direi aqui apenas que ele é ainda mais racionalista que o seu método de diagnóstico ou de explicação; de fato, ele se baseia na hipótese de que, a partir do momento em que um homem compreende inteiramente o que lhe aconteceu na sua infância, sua neurose irá desaparecer.

Mas se explicamos assim todas as coisas em função do princípio da racionalidade, não haveria risco de um resultado tautológico? Certamente que não; de fato, uma tautologia é verdadeira por evidência, ao passo que empregamos o princípio de racionalidade simplesmente como uma boa aproximação da realidade, reconhecendo que ele não é verdadeiro.

Dir-se-á ainda: nessas condições, de onde vem a distinção entre racionalidade e irracionalidade? Entre saúde e patologia mental?

Esta questão é importante. A diferença principal, me parece, tem a ver com o fato de que as idéias de uma pessoa em plena saúde mental não são impossíveis de serem corrigidas: uma pessoa em plena saúde mental mostra sempre uma certa disposição de revisar as suas opiniões. Ela só pode fazê-lo contra a vontade; ela se coloca, contudo, pronta a corrigi-las sob a pressão dos eventos, das opiniões sustentadas por outros, e de argumentos críticos.

Se assim é, podemos dizer que a mentalidade do homem que possui opiniões bem firmes, o homem engajado, assemelha-se àquela do louco. Pode ocorrer que todas as opiniões bem firmes desse homem sejam adaptadas, no sentido de que elas coincidem efetivamente com a melhor solução possível no momento em que elas são concebidas. Mas na medida em que ele está engajado, ele não é racional: ele irá se recusar a toda variação, a toda revisão. Como ele não pode estar de posse da verdade exata (pessoa alguma pode), ele irá se recusar a corrigir, dentro de um espírito racional, até mesmo as opiniões cuja falsidade seja patente. E ele irá se recusar, do mesmo modo, a partir de sua vida, que a sociedade aceite a revisão dessas idéias.

É por isso que, quando esses que glorificam o engajamento e a fé cega se apresentam com o nome de irracionalistas (ou pós-racionalistas), eu me ponho de acordo com eles. Eles são irracionalistas, embora sejam capazes da raciocinar. Isso porque eles encontram uma soberba em se reconhecerem incapazes de quebrar a casca, em se fazerem prisioneiros de suas manias. Eles se privam espiritualmente da liberdade, por um ato explicável (segundo os psiquiatras), no sentido da ação racionalmente compreensível. Iss pode ser visto, por exemplo, como um ato cometido por temor - o temor de ser forçado, pela crítica, a abandonar uma idéia à qual eles se prendem, pois ela se constitui (ou porque eles acreditam que ela constitui) a base de toda sua vida. (O livre engajamento e o fanatismo - que, como se sabe, pode levar à loucura - estão assim interligados da maneira mais perigosa.)

Em suma: é necessário distinguir entre a racionalidade como atitude pessoal (da qual normalmente todos os homens de espírito são capazes) e o princípio de racionalidade.

A racionalidade como atitude pessoal consiste na disposição de corrigir nossas idéias. Em sua forma mais desenvolvida, intelectualmente, é uma disposição de examinar nossas idéias de um espírito crítico, e a revisá-las à luz de uma discussão crítica com os outros.

O princípio da racionalidade, por seu turno, não tem nada a ver com a hipótese segundo a qual os homens são racionais nesse sentido, adotando sempre uma atitude racional. Ele consiste, de fato, em um princípio mínimo (isso porque ele supõe simplesmente a adaptação dos nossos atos a nossas situações-problema tais como a vemos), que anima antes de tudo nos modelos situacionais explicativos e que, ainda que saibamos que não é verdadeiro, consideramos de qualquer modo como uma boa aproximação. A adoção desse princípio reduz consideravelmente o caráter arbitrário dos nossos modelos; um caráter arbitrário que encheria de vaidade um verdadeiro espírito se tentássemos construir os modelos fazendo-nos passar por ele.

tradução de Marco Antonio Franciotti

in Popper, K. (1966): Les Fondements Philosophiques des Systemes Economiques, Paris: Ed. Emil M. Classen, Payot, pgs. 148-150.

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